29 de junho |







Ensaio Hermenêutico I: "Justificação que condena."
Mayra Lopes

A interdisciplinaridade deve existir, mas não deve ser extremista como atualmente observa-se, porque, dessa forma, existem determinações que são exclusivas de uma ciência específica que são erroneamente usadas em outras ciências. O que pode ser exemplificado como a terceira Lei de Newton: "A cada força (ação) corresponde outra força igual e oposta (reação)".

A partir dessa lei newtoniana, a sociedade tenta justificar tudo, e tornou-se comum ouvir expressões como "aqui se faz, aqui se paga", "colheu tempestade porque plantou ventania", "só se colhe o que se plantou".

O cientificismo exagerado de nossa sociedade tenta usar a física para explicar tudo. Confere-se à lei de Newton uma hermenêutica que ela não possui. Essa lei resultou de séculos de experiências com objetos em movimento, foi elaborada para as ciências exatas. É nas ciências exatas que deve permanecer, portanto.

É evidente que as ciências humanas possuem considerações semelhantes, pois todo ato tem um resultado. Mas um resultado, não implica que ocorrerá o esperado por um padrão probabilístico, quando tratamos de ações humanas ou mesmo da biologia; Por vezes, ocorre o pouco provável em determinado ao planejado, ao esperado. Sendo assim, as questões do ser humano devem ser tratadas pelas ciências humanas. As leis Newtonianas já possuem razões suficientes para a sua existência na física.

São inúmeras as ciências que tratarão das ações humanas e seus resultados, dentre elas: a psicologia que mostrará a importância do posicionamento humano diante da adversidade; a filosofia que tenderá a explicar o que é o homem, o que são resultados... E, a teologia que alem de relacionar o homem e seus resultados terá que explicar como fica a percepção humana da vontade de Deus em meio às tais circunstancias.

Observa-se na sociedade que se uma pessoa pratica iniqüidades ela sofrerá a punição por suas más ações. Tal observação PARECE encontrar justificativa no Salmo 1 que transcrevo:

"Ditoso o homem que não se deixou levar pelo conselho dos ímpios, que não se deteve no caminho dos pecadores, que não se sentou na cadeira dos zombadores, mas que tem a sua vontade posta na lei do senhor, e nessa lei medita de dia e noite. Será como árvore, que está plantada junto às correntes das águas, que a seu tempo dará seu fruto, e cujas folhas não cairão; e todas as coisas que ele fizer serão prósperas. Não são assim os ímpios, não assim; mas serão como pó que o vento dispersa à superfície da terra. Por isso os ímpios não ressuscitarão no juízo, nem os pecadores estarão na congregação dos justos; Porque o senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá."

Se o salmo for analisado de forma pragmática, racionalmente, sem cuidado hermenêutico dará a falsa impressão de que concorda com a 3ª Lei de Newton e com a crueldade desumana que afirma: "está pagando o mal que fez". Porém, torna-se função da ciência humana indicar uma interpretação mais humana e menos cruel, mais digna de um texto sagrado.

Deve-se atentar para o fato de que independente da Bíblia utilizada a tradução dos verbos encontram-se sempre no sentido de ser e de estar, nunca no de ter ou possuir principalmente quando se refere ao resultado da ação. Como no caso dos verbos que estão grifados e para os quais se deve atentar com maior atenção.

Quando o salmista coloca: "e todas as coisas que ele fizer serão prósperas" refere-se a um próspero não no sentido material ou monetário de prosperidade e sim no sentido de uma prosperidade da existência que cumpriu sua função.

Ora, alguns são tendenciosos a emitir julgamentos pessoais baseados em bens materiais, e não embasados no que o ser é. Mas a escritura é clara: será no sentido de que o ser permanece com a provisão necessária a sua existência indicada no verbo está. Que confere às águas correntes a função de provisão necessária à vida do ser, ou melhor, da árvore. E, dará o seu fruto. Só é possível dar o que se é em existência, só se dá o "dar-se". As demais relações de doação não passam de bens materiais transferidos.

A comparação a uma árvore frutífera, bem suprida em suas necessidades de alimento e refere-se a uma árvore capacitada para atingir o pleno potencial a ela designado por Deus (a palavra hebraica usada para descrever este tipo de homem indica algo ou alguém que é fiel a um padrão, que é como deve ser).

O comparado com o pó faz menção à Palestina antiga onde a poeira era levada aos ares do alto dos morros sem direção, dominada pelo vento. No texto, a arvore é análoga ao homem. Os frutos são as próprias ações, ações que coincidem com o que é intrínseco do ser. E, o salva do mal metafísico de ser menos do que poderia ser. Desse modo, só o ser que é poderá inserir-se na história como folhas que não cairão. Então, "os ímpios serão como pó que o vento dispersa à superfície da terra", ou seja, são menos do que poderiam ser diante das possibilidades para sua existência e permanência na historicidade.

"Por isso os ímpios não ressuscitarão no juízo, nem os pecadores estarão na congregação dos justos." Uma vez que aquilo que não é, não poderá ressuscitar, e o que não existe não poderá estar. Sendo Deus o puro ato de ser, conhecerá o caminho dos que são. O caminho dos demais perecerá no tempo. O primeiro salmo não vem condenar o humano, e sim constatar a existência de um mal enquanto falta, ausência do bem.

Fica óbvio que ser mau já é resultado de um modo de ser inadequado, insuficiente, e para essa completude simultânea não se fazem necessárias maiores punições do que o próprio desperdício de um ato que poderia se aproximar mais da plenitude. Ser "menos" é estar fadado à falta de si mesmo.

Haveria punição maior?

Surge a pergunta: "Por que se precisa da idéia de culpa, de pagar"? Pois bem, quando o ser humano se depara com situações aparentemente injustas, tenta arrumar justificativas para tornar a situação mais suportável. A forma mais fácil é conferir a culpa a alguém, resignar em "pagar os pecados", mesmo que não saiba qual pecado, mesmo que o respectivo pecado não exista, ou sequer tenha existido.

Diante do cego de nascença procura-se um pecado (João 9); Como encontrar um pecado antes de nascer? Torna-se uma tarefa no âmbito do impossível. Quem sabe seriam talvez pecados de seus pais, seus avós... Do animal de estimação de sua família?

João ensina que o cego de nascença não o é por pecado próprio ou mesmo de seus pais; mas, tal informação pode distorcer a visão da divindade, fazendo-a parecer cruel. Poderia Deus ser injusto? Claro que não, mas a resposta para a questão só pode ser entendida ao observamos os verbos existentes no primeiro Salmo.

Todos os verbos que indicam resultado relacionam ao ser e não ao ter. Deus é o Deus que dá a vida e permite que o homem e a mulher possam ser como nas palavras do salmista: "serão".

Porém, o cientificismo, o pragmatismo e o empirismo da teologia da prosperidade, embevecidos pela terceira lei da física de Newton, reduzem a experiência humana sugerindo que a ação só é perceptível por meio da sua reação: "Fulano tem o que merece". É preciso ousadia para entender que: Fulano pode não ter o que merece, mas, fulano é o que merece. As ações de seres dignos de existir devem ser fundamentas em si, e não nos resultados que poderá obter. Pensar ações visando seus resultados é infeliz, é mais próximo do maquiavélico, do que do sagrado.

Isso se comprova na vida: Todos os meios para permanecer no poder são lícitos? Toda pessoa abastada de ouro, digo, de euros, é capaz de amor e caridade, é humanitária, é humana?

Quando a ação se funda na "vontade posta", como cita o salmista percebe no ato o seu principal propósito de efetivação. Essa postura permite um comprometimento com as ações, com os semelhantes, e do ser consigo. Nem toda desolação é resultado de más ações, como se comprova na história de Jó. Jó era servo fiel de Deus, e tinha uma vida feliz. Satan pede a Deus para retirar os bens de Jó, depois sua família, seus amigos o abandonam, e por último ele é ferido em suas carnes, sendo assim testado em sua fidelidade. Deus permite tudo isso dizendo sempre para Satan: "Eis que ele está na tua mão, conserva, porém, a sua vida". DEUS, SENDO JUSTO, PODE PERMITIR QUE UMA PESSOA ÍNTEGRA RECEBA TRIBULAÇÕES, PORQUE LHE DEU A VIDA, E O RESTO, SÃO APENAS ACRÉSCIMOS, EXPERIÊNCIAS. Só valorizando a vida pode-se atribuir sentido suficiente a resignação de Jó a ponto de entendê-la na passagem em que diz: "Nu saí do ventre de minha mãe, e nu tornarei para lá. O Senhor deu, o Senhor tirou, como foi do agrado do Senhor, assim sucedeu: bendito seja o nome do senhor." Só valorizando a vida por si mesma, pelo valor de expressar na existência o que se é, o humano será inocentado dessa condenação de tentar justificar seus sofrimentos. Só valorizando a vida é que encontrar-se á uma significação honesta para as experiências difíceis, que proporcionam a possibilidade do "Ser" ser em diferentes situações, mais amplo, fecundo e profundo. As árvores fortes crescem em florestas com muitos ventos, porque seu frágil caule torna-se tronco forte de tanto lutar contra as ventanias. Partindo do entendimento da intensidade que é o que chamamos vida é que se vive a felicidade das almas que lutam, que sofrem por vezes, ou por inúmeras vezes (e toda a diversidade de dores), que é forte porque é viva, é vida, é vontade; Uma vida próxima da expressão hebraica ´osher (felicidade), sugerindo uma alegria vinda do próprio céu. A vida de quem mesmo na adversidade descansa no Espírito por possuir consciência da verdadeira prosperidade, pois a existência é essa graça que nos salva do abismo de não existir, é essa graça chamada vida, sempre pronta a ser imbuída de novos sonhos, de um novo sentir, de novos sentidos.










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