Ao longo da idade média a fé recebeu certa definição de cunho altamente intelectual e racional. Isso se deveu, sobretudo, a Santo Tomás de Aquino que assim pontuou : “o ato do intelecto que assente à verdade divina, sob a influência da vontade movida por Deus mediante a graça.” (II. II. q. 2a .9). A Reforma protestante não se pautou muito sobre este prisma. Considerou a fé como ato de confiança. A Bíblia, por sua vez (e que é muito anterior a todas estas definições) tem suas próprias considerações e definições a respeito. Não são tão racionais, sublinha-se. Assim, é bem mais ampla (a fé da Bíblia) que a definição tomista.
A raiz da palavra hebraica ’amanâ, no Antigo Testamento, designa firmeza e solidez. Daí é um passo para que o termo sugira um compromisso de fidelidade. Para alguns exemplos, é bom ver Ne 9,38 (10,1).
Há um longo trecho, no Novo Testamento, em que a fé de alguns personagens bíblicos é colocada em relevo e, por isso, exaltada (cf. Hb 11). Além disso, esta mesma carta traz a sua própria definição do que seja a fé (11,1). Não há muito como pontuar diretamente e com detalhes rigorosos uma definição da fé. Isso se deve ao fato de que as designações bíblicas podem refletir a complexidade das atitudes espirituais daqueles que crêem. Quando se trata do vocabulário grego, a questão se complica ainda mais. Contudo, a modo de resumo, o grande exemplo de fé do Antigo Testamento é, sem dúvida, Abraão.
Hoje se diz da fé como um ato de conhecimento de Deus (não intelectual, somente). Um conhecimento que vai na direção da experiência de Deus e da sua Palavra revelada além de seus atos de salvação. Isso faz do ser humano alguém que está (sempre) pronto para ouvir, atento. Abertura de coração para aceitar e aprender, receber e obedecer (Mt 11,15; 13,13.16-17; Mc 1,15; Lc 8,12; Jo 14,11ss).
O verbo grego pisteuo indica (no Novo Testamento) a confiança. O substantivo pistis aponta para a certeza, confiança e crença. Os cristãos são interpelados a terem a fé em Jesus e em sua palavra. Este é um elemento claro no Novo Testamento (Mt 11,15; 13,13.16-17; Mc 1,15; Lc 8,12; Jo 14,11ss.
). Em resumo, a fé (tanto no AT como no NT) não é um simples ato de confiar ou crer, é algo mais: implica numa aceitação (de uma pessoa) e resposta às exigências que essa aceitação traz consigo.
Bibliografia
DUFOUR, X. L. (Org). Vocabulaire de Théologie Biblique. Paris: Éditions du Cerf, 1962.
McKENZIE, J. L. Dicionário Bíblico. Paulus, 1984.
JOÃO PAULO II. Carta Encíclica “Fides et Ratio”. São Paulo: Paulus, 1998
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