Olha-me pr'a estas crianças de vidro
cheias de água até as lágrimas
enchendo as cidades de estilhaços
procurando a vida
nos caixotes de lixo.
Olha-me estas crianças transporte
animais de carga sobre os dias
percorrendo a cidade até os bordos
carregam a morte sobre os ombros
despejam-se sobre o espaço
enchendo a cidade de estilhaços.
Meninos Carvoeiros
(Manuel Bandeira)
Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
- Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.
Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.
(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se/
com um gemido)
- Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles...
Pequenina, adorável miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!
- Eh, carvoero!
Quando voltam, vêm mordendo um pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos desamparados!
Uma análise comparativa
Nota-se, de imediato, imagens fortes que permeiam ambos os poemas. A modo de exemplo, no poema de Paula Tavares, a referência às "crianças de vidro" que "procuram a vida nos caixotes de lixo", "crianças transporte", "animais de carga que carregam a morte sobre os ombros". De maneira semelhante, Manuel Bandeira se revela emblemático na belíssima arte do uso de imagens fortes: "adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis" e que "voltam mordendo um pão encarvoado."
Salta aos olhos de qualquer leitor mais atento, o paralelismo entre "crianças de vidro" e "crianças raquíticas". Assim também o "pão encarvoado" tem relação com a vida que se procura "nos caixotes de lixo". O contraste existente no primeiro poema entre "procurar a vida" e "carregar a morte" é, de certa forma, evidenciado pelas crianças que dançam e bamboleiam como espantalhos [sem vida e] desamparados.
Paula Tavares privilegia, em seu poema, a referência ao dia, ao cotidiano específico da cidade. Assim também Manuel Bandeira que, no entanto, refere-se à "boca da noite" e à "madrugada ingênua". É curioso notar a fragilidade dos personagens nos textos (como já mencionado), isto é, crianças de vidro, burrinhos magrinhos e velhos, velhinha que se dobra com um gemido, crianças raquíticas e burrinhos descadeirados.
A miséria é ponto comum a ambos os poemas. Sua indicação é bem sutil por Paula Tavares (caixotes de lixo) enquanto que, para Bandeira,é explícita ironia: "adorável miséria"... "pão encarvoado" (Note-se, ainda, o paralelismo (no mesmo verso) entre "adorável miséria"e "adoráveis carvoerinhos" ). Igualmente a pobreza é assim retratada. Se por um lado crianças "cheias de lágrimas enchem as cidades", a descrição detalhada do segundo poema não pode deixar de ser notada: burros magros, aniagem remendada, pão de pobreza e sujeira.
Mais um contraste entre os dois poemas que acaba por uni-los: a indicação da tristeza e desolação (cheias de lágrimas) e a imagem da felicidade dos meninos carvoeiros ("trabalhais como se brincásseis", "apostando corrida" e "dançando e bamboleando"). Quem nunca viu uma criança pegando lixo na rua? Quem nunca viu um rostinho sujo e cheio de felicidade por causa de um pedaço sujo de alimento? Quem nunca foi abordado por uma mãozinha "de vidro" que pedia o que comer? É a dura realidade vista de dois lados: os que brincam com a vida para viver e os que se tornam brinquedos da vida (carregam a morte).
Esta última reflexão, que já adquire ares conclusivos, quer apontar para o que, sob certo aspecto, parece ser o ponto culminante desta análise comparativa. Em primeiro lugar, Paula Tavares diz das "crianças transporte", "animais de carga". Por sua vez, Bandeira colore os burrinhos com imagens características de sua condição de animais de carga: levam seis sacos de carvão, são descadeirados e tocados por um relho enorme. Ora, esses burrinhos parecem descrever a própria condição dos meninos que, também, não passam de animais de carga e que, sobre seus ombros, levam um peso muito maior do que o de seis sacos de carvão. A relação fica ainda mais evidente quando o poeta declara:
"Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados."
Os poemas:
TAVARES, Paula. O Lago da Lua. Lisboa: Caminho, 1999, 36.
BANDEIRA, Manuel. Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1993, 192.
Paula Tavares, ou Ana Paula Tavares, nasceu em Huita (Angola), em 1952. Publicou, até agora, os seguintes livros de poemas: Ritos de Passagem (1985), O Lago da Lua (1999) e Dizes-me coisas amargas como os frutos (2001).
Rascunhus - Copyright 2006 - Todos os Direitos Reservados