22 de agosto |







A ALIANÇA COM TODA A CRIAÇÃO
Frei Ildo Perondi

Artigo gentilmente cedido pelo Frei Ildo Perondi da PUC-Paraná. Os agradecimentos sinceros de rascunhus.com

1. A Primeira Aliança

Um leitor bem atento deverá percorrer algumas páginas da Bíblia até encontrar o termo "berit": Aliança. É em Gn 6,18[1] que ele comparece pela primeira vez, mas ainda é apenas um anúncio da Aliança. Esta Aliança será estabelecida depois do Dilúvio. Portanto é somente no capítulo 9 do Gênesis que se fala propriamente da Aliança. Esta é a primeira e também a mais ampla de todas as Alianças do Antigo Testamento, porque foi estabelecida entre Deus e toda a sua Criação.

Esta Aliança, com caráter eterno (9,16), continua em vigor porque em nenhum lugar da Bíblia se diz que a mesma foi revogada, e ultimamente tem sido objeto de muitas reflexões, devido à sua importância como categoria teológica e porque adquire hoje uma dimensão ecológica, ecumênica e também para o diálogo inter-religioso.

2. O contexto

O texto onde é descrita a Aliança de Deus com toda a Criação é a conclusão do bloco de Gn 6,5-9,17. Porém, como bem informa Milton Schwantes[2], este bloco é o núcleo, isto é, o centro, e a parte principal dos capítulos de Gn 1-11. E é no centro que se coloca o que é mais importante.

Vamos recordar alguns dos acontecimentos narrados pela Bíblia, que precederam a primeira Aliança, sem entrar muito nos detalhes dos mesmos, devido à sua complexidade[3].

O Dilúvio nos mostra que a situação é novamente de caos. E isto nos faz lembrar o início da criação (1,2). Porém, diferente daquele caos inicial, desta vez ele foi provocado pelo homem. Javé viu que a maldade do homem era grande sobre a terra (Gn 6,5). Mas o autor da fonte Sacerdotal vai mais longe: "A terra se perverteu diante de Deus e encheu-se de violência. Deus viu a terra: estava pervertida, porque toda a carne tinha uma conduta perversa sobre a terra" (6,11-12). Portanto, neste caso, a maldade, injustiça e corrupção seriam de toda a Criação e não somente do homem.

O que Deus vê agora é totalmente o contraste com a aquela bondade/beleza que Ele viu no surgimento de cada obra criada (1,3.10.12.18.21.25.31). Nos textos que se seguiram à criação, encontramos uma seqüência de fatos negativos. Seguindo uma ordem como é apresentada na Bíblia, podemos afirmar que o Criador viu a desobediência do primeiro casal e sua expulsão do paraíso (3,1-24). Deus viu também o primeiro homicídio que fez o sangue inocente, do solo, clamar a Deus (4,1-16). Outros assassinatos devem ter ocorrido (cf. 4,23). Tudo isso parece ter distanciado a Criação do projeto inicial. Porém, parece que a hibridagem da Criação quando os "os filhos de Deus se uniram às filhas dos homens" (6,2) é que foi a causa maior da corrupção da criação. Vendo a maldade humana sobre a terra e que todo desígnio do coração do homem era mau, Javé arrependeu-se de ter feito o homem sobre a terra (6,5-6). O ki tov ("que [era] bom/belo") inicial havia dado lugar novamente ao caos.

Os pecados que Deus vê e que afligem seu coração se referem mais à relação homem x homem do que à relação homem x Deus. Tudo isso parece desagradar o Criador que decide pelo castigo: "Chegou o fim de toda carne, eu o decidi, pois a terra está cheia de violência por causa dos homens e eu os farei desaparecer da terra" (6,13). O dilúvio é a punição divina a esta Criação que se desviou da sua missão.

Porém, mesmo que os fatos mencionados se refiram a uma data muito distante, a redação do texto é do tempo do Exílio[4]. Israel está diante do "caos" que foi a perda da terra, a destruição do Templo e de Jerusalém. Israel e o autor do texto estão diante do "caos" que é o império da Babilônia. É necessário superar a catástrofe, encontrar saídas. É preciso re-criar, dar esperança, restabelecer o contato com Deus.

A Aliança será estabelecida somente depois do Dilúvio quando haverá um novo início da Criação. Ela vem precedida da oferenda de Noé, como primeiro ato depois da saída da Arca. Ele construiu um altar e sobre ele apresentou sua dádiva a Javé. É interessante notar que não foram oferecidos sacrifícios de comunhão, pois neles o ofertante podia consumir parte dos animais oferecidos. Noé ofereceu um holocausto com animais puros e as aves puras (por isso Noé levou para a Arca sete pares de animais puros e não somente um casal como fez com os animais impuros). E sendo um holocausto todas as vítimas foram queimadas em oferta total a Deus. O autor (J) faz questão de registrar que "Javé respirou o agradável perfume" (8,21). E após este ato cultual de um justo (movimento ascendente), realizado com perfeição, o Criador se compromete a não mais amaldiçoar a terra, mesmo sabendo que "os desígnios do coração do homem são maus desde a sua infância" (cf. 8,21). Portanto, Ele assume também o compromisso de não mais destruir os viventes como havia feito (8,21). Em seguida (9,1) Deus então abençoa Noé e sua família (movimento descendente). O restabelecimento da harmonia havia acontecido e, portanto, o ambiente estava pronto para a concretização da Aliança.

3. Noé

Noé é o herói do dilúvio e o interlocutor para a primeira Aliança. Noah provém da raiz hebraica nhm "consolar" (cf. 5,29). Outros procuram ver no nome "aquele que foi prolongado". Mas também o nome de Noé pode estar ligado à raiz "respirar". Interessante notar que ele é o último dos dez patriarcas pré-históricos e que os fatos do Dilúvio acontecem quando Noé tem seiscentos anos. O autor quer deixar evidente que os ancestrais de Noé já haviam morrido, pois sendo os "heróis dos antepassados" não poderiam ser vítimas do castigo. Noé é filho de Lamec e pai de Sem, Cam e Jafé. É um cultivador de vinhas (9,20) e, segundo uma tradição judaica, Noé escreveu um livro sobre plantas medicinais.

Noé tem certas semelhanças com o herói mesopotâmico Ut-napishtim, da epopéia de Gilgamesh, e o texto seguramente depende dele, mesmo que a Bíblia lhe dê conteúdos e contextos diferentes.

Em algumas correntes do judaísmo Noé foi visto de diferentes modos. De acordo com o grande exegeta Judeu, Rabi Shimon Bar Yitschak, o Rashi, que viveu há novecentos anos: "Há alguns dos nossos mestres que interpretam como elogio: se houvesse vivido numa geração de justos teria sido mais justo ainda; e há alguns que o interpretam como descrédito [de forma negativa]: em comparação com sua geração era justo, mas se houvesse estado na geração de Abraão, não seria considerado para nada [como um homem justo] (Sanhedrin, 108)"[5]. Diante da ameaça de destruição do dilúvio ele é um líder passivo que, sem hesitação, obedece cegamente as ordens recebidas. É um homem obediente a Deus em tudo, um executor exemplar daquilo que Deus ordena. Noé ouve, faz, mas não fala. Nos capítulos do bloco 6-9 temos um monólogo divino. Se dependesse desses capítulos Noé poderia ser considerado um mudo. Bem diferente da figura de Abraão, o líder que diante da ameaça de Deus se põe a confrontar e negociar como Criador (Gn 18,17-32). Noé também é diferente de Moisés que defende seu povo, mesmo que tenha pecado e rompido a Aliança, recordando a Javé suas promessas (cf. Ex 32,11-14; Dt 9,22-29).

Noé é um homem justo e que "caminhava com Deus" (6,9) e por causa desta sua fidelidade e prática da justiça, teve sua vida, bem como de toda a sua família, poupada por Deus. Ele será recordado como o homem justo (tzadik) que caminhou com Deus e graças a quem a humanidade foi salva. Noé também passou a ser visto como um novo Adão, de quem descendem todas as gerações pós-diluvianas.

A figura de Noé no AT é ainda lembrada explicitamente em 1Cr 1,1-4, num relato genealógico; em Tb 4,12, o pai lembra a Tobias de seguir o exemplo de Noé ao escolher uma mulher da sua estirpe; em Sb 10,4 e 14,6, se recorda que a Sabedoria salvou o mundo por meio do justo que pilotou a frágil embarcação; em Eclo 44,17-18, é lembrada mais uma vez a justiça de Noé, com quem foi estabelecida a Aliança; em Is 54,9-10, em contexto exílico, Deus se recorda do juramento feito nos dias de Noé e se compromete em não se encolerizar; em Ez 14,12-20, Noé é recordado ao lado das figuras de Jó e Danel. Porém, mesmo sem mencionar diretamente Noé, muitos textos pós-exílicos que se referem ao "Resto de Israel", justo e fiel, poderiam muito bem ter em mente o exemplo de Noé.

No Novo Testamento Noé é mencionado nas seguintes passagens: em Lc 3,36, na genealogia; em Mt 24,37-38 e Lc 17,26-27, quando Jesus recorda "os dias de Noé"; em Hb 11,7, Noé é citado como exemplo de fé; em 1Pd 3,20, lembra a incredulidade dos pecadores e a fidelidade de Noé. Lá a salvação veio por meio da Arca, agora vem por meio do batismo; em 2Pd 2,5, recordando os que foram salvos do dilúvio, Noé é citado como o "arauto da justiça"[6].

Porém, a Aliança com Noé não é com um personagem, como Abraão e seu clã, ou com uma raça como a Aliança do Sinai (com Moisés como interlocutor). Noé representa a humanidade e também toda a Criação. Por isso, é interessante notar quando Deus se dirige e fala com Noé usa sempre o plural: "Eis que estabeleço minha aliança convosco..." (9,9.11), ou "entre mim e vós e todos os seres vivos" (9,12) ou mais "entre mim e a terra" (9,13)... Enfim, ainda que seja um único homem justo (tzadik) a intermediar a Aliança e representar tudo o que vive e respira, a Aliança é ampla e busca abranger toda a Criação e as gerações futuras (9,12).

4. O símbolo da Aliança

O símbolo da Aliança com Noé é o arco-íris: "Eis o sinal da aliança que instituo entre mim e todos os seres vivos que estão convosco, para todas as gerações futuras: porei o meu arco na nuvem e ele se tornará um sinal da aliança entre mim e a terra" (9,12-13).

A palavra hebraica utilizada é qedesh e que a Bíblia traduz como arco-íris, porém no AT em geral o termo significa o arco da guerra. Por isso, a idéia que se pretende transmitir é que Deus está mostrando que Ele colocou de lado o seu arco, assumindo o compromisso de nunca mais destruir a sua Criação.

O arco-íris, além de ser um belo sinal, consistia em algo enigmático e inexplicável para a época. Um sinal do pluralismo devido à variedade das cores. Podia surgir depois das chuvas (tempestades) e fazia esta inexplicável e bonita ligação como uma ponte entre o céu e a terra, como um sinal de religamento, de harmonia cósmica e de Shalom[7]. Por ser um fenômeno que ocorre em todas as partes do mundo e admirado por todas as culturas, tornou-se o símbolo universal desta Aliança. Mesmo sem relacioná-lo diretamente com a Aliança, o autor do Eclesiástico se encanta diante dele: "Contempla o arco-íris e bendize o seu Autor, ele é magnífico em seu esplendor. forma no céu um círculo de glória, as mãos do Altíssimo o estendem" (Eclo 43,11-12).

O surgimento do arco-íris era para recordar a Aliança estabelecida. Porém, mais que a Criação ou os humanos, era Deus mesmo que se recordava: "Quando eu reunir as nuvens sobre a terra e o arco aparecer na nuvem, eu me lembrarei da aliança que há entre mim e vós e todos os seres vivos..." (9,14-15). Portanto, o sinal é para Deus. Esta expressão vem repetida novamente no versículo seguinte "eu verei e me lembrarei da Aliança" (9,16). No entanto, também o povo de Deus, historicamente, ao ver o arco-íris recordava a Aliança e contemplava seu Deus.

5. O conteúdo da Aliança

À primeira vista parece que esta Aliança seja um pacto unilateral onde somente Deus se compromete. É interessante observar que o autor não emprega o termo que seria esperado, isto é, "karat berit" (cortar aliança), mas utiliza o verbo qum, ou seja: estabelecer, instituir... Isso denota o aspecto da gratuidade de Deus, pois é uma iniciativa espontânea da parte do Criador.

Mesmo assim, como em todas as Alianças, temos compromissos de ambas as partes, embora nesta Aliança é Deus quem assume os pontos principais do pacto.

Ainda antes de firmar a Aliança, Deus assume um compromisso, pois o capítulo 9 inicia com a bênção indicando que Deus está se comprometendo a abençoar, como já havia feito no início da criação (1,22.28; 2,3), assim não retirará seu beneplácito sobre sua Criação.

O ser humano recebe autorização para comer carne, revogando a ordem de 1,29. Por duas vezes é repetida a expressão de 1,28: "Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei/povoai a terra" (9,1.7).

O Deus Criador da vida exige também respeito à vida, pois esta tem sua razão na alma (nefesh) e mais propriamente no sangue (dam). Portanto, ao homem será proibido comer o sangue dos animais porque o sangue simboliza a vida.

Porém, uma exigência muito importante, e que visa impedir a violência entre os homens (uma das causas do dilúvio), está na questão do derramamento de sangue.

"Pedirei contas, porém, do sangue de cada um de vós.
Pedirei contas a todos os animais e ao homem, aos homens entre si,
eu pedirei contas da alma do homem" (9,5).

É interessante notar que por três vezes aparece a expressão "pedirei contas" (verbo darash) num único versículo. Deste modo, nenhum homem tem o direito de tirar a vida do seu irmão, pois a vida pertence unicamente ao seu Criador[8]. Tirar a vida do outro é um ato contra Deus, de quem o ser humano é imagem e semelhança (1,26).

A seguir (9,6) encontramos um trocadilho onde três palavras repetidas formam duas frases: o verbo shapak (derramar) + o substantivo dam (sangue) + adam (homem):

Quem derrama sangue do homem,
Pelo homem terá seu sangue derramado.

Com isso se produz um provérbio popular parecido ao nosso "Quem com ferro fere, com ferro será ferido" ou como a expressão de Jesus "todos os que pegam em espada pela espada perecerão" (Mt 26,52), ressaltando mais uma vez a proibição de matar um homem, acrescentando o castigo para quem o praticar, ou seja, que mais cedo ou mais tarde terá que prestar contas do sangue derramado. Assim o provérbio de 9,6 "ao ser colocado na boca de Deus, converte-se em ameaça, em profecia e em lei, para infundir temor e proteger a vida humana"[9]. É mais uma afirmação categórica da Bíblia contra a pena de morte e a favor da vida, como já foi em 4,15 e que será incluída de forma explícita nos Dez Mandamentos (Ex 20,13; Dt 5,17).

A cláusula mais importante é o compromisso de Deus: "Tudo o que existe não será mais destruído pelas águas do dilúvio, não haverá mais dilúvio para a devastar a terra" (9,11). Esta promessa desautoriza, ou põe em descrédito, o método do castigo para incutir medo[10]. Não é suficiente acabar com o pecador para acabar com o pecado. Promover a vida parece ser mais apropriado. Por isso, não haverá mais dilúvio vindo da parte de Deus!

6. Os 7 preceitos da Aliança com Noé

A Aliança com Noé pode ser considerada unilateral no sentido que é somente Deus quem a estabelece e é Ele quem estipula os termos do Pacto firmado. No entanto, a partir desta Aliança, contemplando toda a Criação e entendida como destinada a todos os povos, estabeleceu-se o Noaquismo, chamado também "Pacto de Noé", ou "os sete mandamentos de Noé"[11].

O Noaquismo parece ter tido influencia no NT e na história. Ultimamente, sobretudo na Europa e nos USA, é retomado como ponto de referência para o diálogo entre judeus, cristãos e muçulmanos, pois nele todos nos encontramos, uma vez que todos fazemos parte desta primeira Aliança.

Existem várias versões e algumas pequenas divergências sobre estes sete preceitos. Apresentamos abaixo a proposta da Torá (Bíblia Hebraica)[12]:

1) praticar a equidade;
2) não blasfemar o nome de Deus;
3) não praticar a idolatria,
4) nem imoralidades;
5) nem assassinatos
6) e nem roubos;
7) não tirar e comer o membro de um animal estando vivo[13].

O primeiro mandamento é positivo, enquanto que os demais são negativos, mantendo em certo sentido a estrutura dos Dez Mandamentos.

É com esta chave de leitura que podemos interpretar o texto de At 15, no chamado Concílio de Jerusalém, a assembléia dos Apóstolos e dos Anciãos. Ou seja, aos cristãos provenientes do paganismo, que não eram judeus, não se podia exigir o cumprimento de toda Lei de Moisés (exemplo fazer a circuncisão), mas somente alguns preceitos (At 15,20) que são de caráter universal, com fundamentação no AT, como: "que se abstenham do que está contaminado pelos ídolos (cf. Lv 17,3-9), das uniões ilegítimas (cf. Lv 18), das carnes sufocadas (cf. Lv 17,15-16) e do sangue (cf. Lv 17,10-14)".

7. Atualidade da Aliança com Noé

7.1 A dimensão ecológica: Na Aliança com Noé, Deus se comprometeu a nunca mais destruir a Criação com o dilúvio. Ultimamente a virada do milênio, o tsumani na Ásia, o furacão Katrina nos USA e outros fenômenos da natureza, fizeram surgir muitos boatos de fim de mundo ou de que eram castigos de Deus. Há uma promessa e esta continua em vigor. Mas o perigo da destruição da criação hoje continua real, não mais pela vontade de Deus, mas por culpa do ser humano. Nunca a natureza foi tão agredida e destruída como nos últimos anos (sobretudo com a visão utilitarista das reservas naturais). A retomada da corrida armamentista e sobretudo a ameaça nuclear ameaçam a existência do Planeta. Somos nós, os humanos, que poderemos desencadear o um novo "dilúvio" mais devastador do que o primeiro. Hoje torna-se urgente um pacto, uma Aliança ecológica, no sentido de preservar o Planeta e toda a Criação. A Terra não suportará por muitos anos esta agressão. Corremos o sério risco de sermos vomitados (cf. Lv 18,24-30; 20,22). Portanto, é necessária a retomada da Aliança com Deus. O ser humano precisa ter a sua reciprocidade, deve assumir a sua "obrigação" na Aliança.

7.2. A importância da Justiça: Ainda que a figura do "justo Noé", seja discutida (como vimos acima) é importante vivermos a justiça. Por causa de um justo Deus poupou Noé e sua família e a Criação teve continuidade. A existência de dez justos faz com que Deus não destrua a cidade ouvindo o pedido de Abraão (Gn 18,22-33). O Profeta Jeremias não encontrou um justo em Jerusalém e por isso previu a invasão da Babilônia (Jr 5,1ss). Portanto, mesmo que vivemos num mundo de corrupção, injustiças e onde quase se proclama e louva a safadeza e a esperteza em roubar, ser justo é um sinal e a justiça tem valor de redenção.

7.3. O valor o sangue e da vida: As estatísticas nos revelam a cada ano o número absurdo de pessoas que foram mortas violentamente. O dia a dia de nossas cidades se tornou violento, inseguro. Mata-se facilmente. Mata-se por tão pouco. De outro lado, assistimos às torturas e massacres de inocentes praticadas pelos USA contra iraquianos, o massacre de Ruanda, os atentados terroristas que ceifaram tantas vidas pelo mundo, etc. São exemplos do desrespeito à vida em nome de projetos imperialistas. A vida humana tem valor e é sagrada. Na vida do outro, mesmo sendo adversário, está o sangue, o nefesh e ninguém tem o direito de tirar a vida do outro, pois esta pertence unicamente a Deus.

7.4. O Ecumenismo universal. Na Aliança com Noé nos encontramos todos, não importa a qual religião pertencemos. O diferente não é contrário e nem deve ser eliminado. Somos todos filhos do Deus da Aliança que nos fez diferentes e diversos. Na Aliança com Noé estamos todos os povos, todas as culturas, todas as religiões...

7.5. Ficam desautorizados os "profetas da desgraça". Todos esses que pregam o medo e o castigo violento de Deus (as esquinas, rádios e TVs estão cheias deles), acabam desmentidos pelo próprio Deus[14]. Outra chave de leitura é apresentada pela Bíblia. Deus conhece o coração humano, sabe das suas fraquezas (Gn 8,21) e por isso torna-se compassivo e sabe perdoar, basta que o ser humano saiba arrepender-se do mal e procurar andar na presença de Deus. A graça e a bondade de Deus são seu novo Rosto. Quem prega o castigo e a desgraça passará por mentiroso diante de Deus!

7.6. O respeito com os animais e a natureza: Embora ultimamente tenha evoluído uma certa consciência ecológica, é nestes últimos anos que vemos mais desrespeitados os direitos dos animais e das espécies vivas. Estamos assistindo o desaparecer de muitas espécies vivas. Vemos também a formação dos imensos "desertos verdes" onde as empresas transnacionais plantam uma única espécie (pinus ou eucalipto) que impedem o desenvolvimento de outras espécies de fauna e flora.

7.7. O arco-íris: Quando os antigos viam o arco-íris, sentiam-se diante de um sinal de Deus. Contemplavam sua beleza, seu fascínio. O arco-íris lembrava esta ligação magnífica entre o céu e a terra. O mundo moderno perde cada vez a capacidade de contemplar, de ver sinais, de maravilhar-se com a criação. O arco-íris foi o sinal que surgiu depois da catástrofe das águas. Oxalá, tenhamos bons sinais nos céus! O cristianismo sobreviveu a tantas perseguições até hoje. O judaísmo viveu a catástrofe do holocausto e soube reviver e viu como um sinal de Deus ter conseguido ressurgir... Atualmente novas perseguições e holocaustos nos esperam, mas também novos arco-íris nos mostram a bondade de Deus e seu carinho conosco e com toda a Criação. Diante de todas as crises e de todos os "caos" há sempre também um "arco-íris" para alimentar nossa esperança.

Ildo Perondi
Caixa Postal 8022
86010-980 - Londrina - PR
043-33422695
ildo.perondi@pucpr.br

OBS. Texto publicado na Revista "Estudos Bíblicos" da Vozes, nº 90, sobre as "Alianças na Bíblia".

__________________

[1] As citações dos textos bíblicos são da Bíblia de Jerusalém, porém o tetragrama divino será traduzido por Javé. Todas as citações bíblicas seguintes que não tiverem o nome do livro são do Gênesis.

[2] SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gn 1-11 p. 37-40.

[3] Não entraremos aqui na questão das chamadas "Fontes do Pentateuco", sobretudo devido à falta de um consenso em torno das mesmas. Veja-se para isso A. DE PURY (org.) O Pentateuco em questão, Vozes - 1ª parte, que dá uma panorâmica sobre as discussões em torno das Fontes. Sugiro também SKA, J. L., Introdução à leitura do Pentateuco. Loyola, cap. VII 141-177. Por ora, seguimos a opinião que o relato do dilúvio seja obra de um redator que uniu os relatos das Fontes J e P (SKA, p. 76-81), que a oferta de Noé após a saída da Arca seja da Fonte J e que o texto da Aliança a partir de Gn 9,1 pertença à Fonte P.

[4] SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gn 1-11 p. 41-42.

[5] Chumash Bíblia, com comentários de Rashí, v. 1 Gênesis, p. 27.

[6] Noé também é mencionado no Alcorão. Na sura 71 ele aparece como um pregador e com uma atitude anti-idólatra na sura 7,59-64. Em outros passos se menciona a revelação que Deus lhe fez e sobre a fidelidade em colocar em prática os seus mandamentos.

[7] Uma história rabínica do primeiro ou segundo século ensinava que: "Segundo os mestres, o arco-íris não aparece se no mundo existe qualquer justo assim justo capaz de aplacar a ira do Senhor. Naqueles dias havia um destes justos, e o arco-íris não aparecia. Então ao justo foi perguntado se ele havia visto o arco-íris, e ele, na sua profunda humildade, mentiu e disse de havê-lo visto, somente para afastar de si qualquer 'suspeita' de santidade". Não importa, portanto, que no mundo todos sejamos justos: importa que sempre exista qualquer um que seja justo. Nós todos já vimos muitas vezes as belas cores do arco-íris, quase o sorriso de Deus. Ora sabemos que se uma ponta do arco-íris se apóia sobre Ele, outra se apóia sobre um humilde e desconhecido justo (Cf. DE BENEDETTI, P. Il Dio dell'arcobaleno, in Annali di Studi religiosi I Trento, 2000, p. 27-35).

[8] Como a Aliança é com toda a Criação nem mesmo o animal está isento ao atentar contra a vida humana e talvez seja por isso que em Ex 21,28-32 se exige que o boi que matar uma pessoa também seja morto.

[9] ARANA, A. I. Para compreender o Livro do Gênesis, p. 140.

[10] Cf. SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gn 1-11 p 51.

[11] O número sete é muitas vezes usado na Bíblia para referir-se a todos os povos. As sobras na multiplicação dos pães fora do território de Israel são "sete cestos" (Mt 15,37; Mc 8,8). Sete são os Diáconos para atender as viúvas helenistas (At 6,1-6). Sete eram as nações que deram lugar ao povo de Deus (Dt 7,1; At 13,19), etc.

[12] Torá, a Lei de Moisés, cf. nota de rodapé a Gn 9,4, p. 22.

[13] Outra proposta: 1) observar a justiça; 2) cobrir a vergonha da sua carne; 3) bendizer a quem os criou; 4) honrar pai e mãe; 5) amar o seu próximo; 6) guardar-se da fornicação; 7) guardar-se da impuridade e toda iniqüidade (Cf. RIZZI, G. - CAGLIONI, A. - REDAELLI, A. Il patto con Noé. Caltanissetta 2001). Uma pesquisa pela internet trará várias outras opções, porém serão sempre sete!

[14] É certo que existe o texto de Sf 1,2-3 e de outros Profetas que previam o Dia de Javé. Esta profecia pode ter sido realizada na catástrofe de 586 aC, com a queda de Jerusalém e o povo sendo levado ao Exílio da Babilônia. Mas devemos entender também que a redação da Sofonias é anterior ao texto de Gn 6-9, como vimos acima.


Bibliografia

ARANA, A. I. Para compreender o Livro do Gênesis. São Paulo: Paulinas, 2003.

DE BENEDETTI, P. Il Dio dell'arcobaleno, in Annali di Studi Religiosi I. Trento, 2000.

Chumash Bíblia, com comentários de Rashí, vol. 1: Gênesis. São Paulo: Trejger Editores, 1993.

DEIANA, G. Dai sacrifici dell'Antico Testamento al Sacrificio di Cristo. Roma: Urbaniana University Press, 2002.

MACKENZIE, J. L. Dicionário Bíblico. São Paulo: Paulus, 72002.

DE PURY, A.(Org.) O Pentateuco em Questão. Petrópolis: Vozes, 2002.

RIZZI, G. - CAGLIONI, A. - REDAELLI, A. Il patto con Noé. Caltanissetta: Lussografica, 2001.

SCHWANTES, M. Projetos de Esperança. Meditações sobre Gn 1-11. Petrópolis: Vozes-CEDI- Sinodal, 1989.

SKA, J.-L., Introdução à leitura do Pentateuco. Chaves para a interpretação dos cinco primeiros c. livros da Bíblia. São Paulo: Loyola, 2003.












Rascunhus - Copyright 2006 - Todos os Direitos Reservados