29 de julho |







Ler é iniciar um diálogo

Exegese científica e leitura pastoral da Bíblia
Massimo Grilli

O presente artigo foi traduzido e publicado por rascunhus com a autorização de:
Bulletin DEI VERBUM (BDV)
Catholic Biblical Federation
General Secretariat
Stuttgart - Alemanha


Introdução

A origem do problema sobre a difícil relação entre leitura científica e leitura pastoral se deve a fatores diversos e complexos e, sobretudo, a um dado que hoje é reconhecido por muitos: a exegese científica, tal como se desenvolveu a partir do método histórico-crítico, se fez cada vez mais impermeável à hermenêutica. Assim o texto se converteu em um texto "mudo para o presente"[1] e se tornou cada vez menos importante para a vida das pessoas. É como se o logos não se tivesse feito carne, mas só idéia, encerrada num mundo celestial dos restritos círculos intelectuais e sem um verdadeiro impacto na existência.

A esta distância da pessoa e da comunidade eclesial, própria da exegese oficial tanto católica como protestante, se contrapõe outra leitura que segue vias diametralmente opostas às que acabamos de descrever. Estas são, ainda, mais nocivas. Falo da leitura fundamentalista que, em clara oposição ao método histórico-crítico, rechaça de forma absoluta o pensamento e a investigação crítica como instrumento para compreender o texto bíblico. O fundamentalismo oferece respostas diretas e imediatas aos problemas apresentadas de forma acrítica no texto sagrado que, portanto, não necessita ser "interpretado", mas somente seguido "literalmente". Tem razão a Pontifícia Comissão Bíblica quando afirma, no documento sobre a Interpretação da Bíblia na Igreja, que uma tal leitura "convida, sem dizê-lo, a uma forma de suicídio do pensamento"[2].

Sendo assim, eis a pergunta que, hoje, dramaticamente nos fazemos: é possível encontrar uma leitura do texto que não assassine a inteligência da pessoa, mas que seja também significativa para a existência cotidiana? É possível integrar a seriedade da investigação e do pensamento com a vitalidade e o calor de uma palavra que não volta a Deus ser ter realizado seus prodígios? Minha proposta quer oferecer algumas linhas de reflexão metodológica para integrar exegese científica e leitura pastoral.

1. Hermenêutica: descobrindo um rosto

Para introduzir o que penso sobre a justa relação entre exegese científica e leitura pastoral, quero partir de um símbolo: o rosto humano. O filósofo hebreu Emmanuel Lévinas[3], em um de seus escritos intitulado Ética e infinito (1982), reflete sobre o "rosto" fazendo esta afirmação: "Nós chamamos 'rosto' ao modo em que se apresenta o Outro, que supera a idéia do Outro em mim"[4]. Dizer "rosto" significa, certamente, dizer presença e proximidade porque o rosto manifesta o ser da mulher e do homem. Mas significa, também, alteridade, irredutibilidade. No rosto não temos o todo, nem tudo se pode prever e muito menos dominar. A tentação do ser humano é englobar o Outro, ao invés de reconhecer que o Outro, enquanto estranho, existe antes de qualquer iniciativa minha e de qualquer poder que eu possa exercer. O "rosto" é um mistério que nos supera. Por isto, em uma tradição bíblica se afirma que o ser humano não pode ver o Rosto de Deus.

Esta maravilhosa metáfora do rosto nos remete ao discurso sobre a Palavra de Deus estratificada em um texto porque ler a Palavra é como ler um rosto. Diante da palavra de Deus se adverte, sem dúvida, uma afinidade imediata de pensamento, de modelos, de compreensão do mundo. Neste sentido, a Palavra está perto do ser humano. Bultmann afirmava que o ser humano, antes de se situar "culturalmente", está situado "existencialmente"; antes de pertencer a uma determinada cultura, o ser humano é "existência". Portanto, o ser humano não se encontra nunca desprovido diante do texto bíblico, porque a Bíblia oferece ao ser humano a inteligência autêntica de sua existência: lhe diz que ele é, para além de todas as aparências, verdade e mentira.

Esta certeza da proximidade da palavra tem, contudo, que levar em conta sua distância, sua "alteridade", sua irredutibilidade às categorias humana. Na presença do texto bíblico não podemos nos comportar como uma criança que joga com as construções, modelando o material segundo seus próprios gostos. Temos que respeitar a alteridade. A hermenêutica se converte, então, em um descobrimento difícil, em uma aproximação trabalhosa a um "rosto" que primariamente não nos pertence e de que não podemos dispor. Já se disse que o exercício hermenêutico é um caminho que vai do pré-juízo à pré-compreensão. Se o pré-juízo é um retrocesso diante da pessoa que me fala - a recondução de seu pensamento ao que eu sei e aceito -, a pré-compreensão, em troca, é disposição à escuta, abertura ao mistério. E o mistério - o mistério de um rosto como o mistério de uma palavra - é o que não pode estar submetido ao cálculo e à utilidade.

Como podemos, então, realizar o passo do prejuízo à pré-compreensão, ou, para expressarmos com categorias de Lévinas, do "eu mesmo ao outro", de uma de uma subjetividade fechada e aglutinante a uma subjetividade aberta e acolhedora? Como entrar em uma comunicação que reduz a distância e permite ao leitor entrar no horizonte do "outro" em uma relação autêntica de comunhão, feita de esperança e respeito? Como podemos nós, leitores de nosso século, medirmos segundo uma adequada relação de colaboração com o autor do texto bíblico, de modo que este vir do texto até mim e este ir de mim até o texto - que na realidade se chama "círculo hermenêutico" - seja um caminho verdadeiro e frutífero também para o presente?

2. As funções da linguagem

A Dei Verbum, depois de ter recordado um dos pressupostos fundamentais de nossa fé, isto é, que "Deus fala na Sagrada Escritura" (DV 12), pelo que "a Palavra de Deus, expressada em línguas humanas, se faz semelhante à linguagem humana, como a Palavra eterna do Pai, assumindo nossa débil condição humana,s e fez semelhante aos homens" (DV 13). Assim, pois, podemos dizer que o itinerário da salvação é o da Palavra[5], segundo as leis da linguagem humana. Para comunicar, de fato, as pessoas utilizam a linguagem, que obviamente não é unicamente verbal. Movimentos e posturas do corpo, gestos... constituem outras linguagens, mas a linguagem verbal - composta de palavras - é a mais rica e "plegable" (ndr, flexível) de todas. Mediante a palavra a pessoa se apropria de si mesma, se coloca em diálogo com o outro e se abre ao mundo de Deus. Assim, pois, a linguagem torna possível a comunicação e Deus se utilizou desta linguagem humana para nos comunicar sua vida e sua vontade salvífica.

Se Deus se adaptou ä linguagem humana para falar de seu mistério, então o ser humano para alcançar o mistério de Deus tem que partir desta linguagem, porque o Rosto de Deus quis se revelar em forma humana, mediante as leis da palavra humana. O estudo do mundo da palavra resulta, portanto, indispensável para aproximar-se do Rosto de Deus. A pergunta sobre os mecanismos aos quais obedece a linguagem humana constitui, também, um pressuposto importante para uma correta hermenêutica bíblica.

O que sucede, pois, quando nos comunicamos com a Palavra? Simplificando ao máximo, eu diria que - mais ou menos conscientemente - fazemos uma série de operações que essencialmente podemos reduzir a três: são as três funções essenciais da palavra.

2.1. A palavra é informação

Antes de tudo a palavra informa sobre fatos e acontecimentos, sobre o ser humano e sua história. Este aspecto informativo é importante porque põe verdade e conhecimentos diante do intelecto do ser humano. O que seria a comunicação se não pudéssemos contar o que sucede, objetivar a existência e fazê-la acessível aos demais? Certamente, a informação nunca é completamente neutral, mas essa função informativa da palavra é, sem dúvida, a mais "objetiva" e pertence, também, à revelação bíblica que propõe conteúdos historiográficos, narra acontecimentos, oferece distintas visões do mundo. No entanto, nos damos conta, muito facilmente, do muito que se empobreceria a Palavra de Deus se fosse reduzida a um puro fato informativo. Em alguma ocasião a ciência bíblica privilegiou esta dimensão, esquecendo a riqueza das outras funções da palavra e buscando uma objetividade "científica" que, de todos os modos, corria o risco de mortificar a mensagem. Isso porque a palavra não é simplesmente informação.

2.2. A palavra é revelação

A segunda função da palavra é a de revelar a "pessoa" que a pronuncia. Na palavra o ser humano se confessa, se expressa a si mesmo e se revela a si mesmo. Manifesta seu eu e toma posse dele. O ser humano necessita da palavra para se revelar aos demais e para se revelar a si mesmo. Uma narração não é simplesmente uma exposição fria das coisas; a narração permite que a pessoa de novo se aproprie de si mesma, descubra suas próprias raízes e limites, se reinvente na maravilha do mistério que circunda cada vida humana. No hoje da palavra está o passado e o presente, a memória, a fidelidade, com sua bagagem de prodígios e misérias. Revelando-se ao outro, a pessoa se apropria de sua verdade, entra em seu mundo e no universo que a forjou. A palavra permite trazer à luz elementos nebulosos que se sedimentaram no mais intimo ao longo do caminho, fazê-los emergir de novo, mas permite, também, narrá-los, tirá-los das trevas e colocá-los sob a luz do rosto. Para fazer isto nem sempre se requer que, diante de nós, haja um mestre de profissão. Às vezes basta estar com alguém que saiba escutar. Um provérbio hebreu diz que, quando dois hebreus se encontram e um deles tem um problema, o outro se converte em rabino. No entanto, a história da palavra não pára aqui. Além da função de informar sobre o mundo, além daquela de expressar o mundo, a palavra busca um "tu": é a terceira função da palavra, a função "apelativa".

2.3. A palavra é chamada

A palavra humana e divina é essencialmente uma busca do outro. Para ser um "eu" se necessita um "tu", porque levamos no coração a nostalgia de um rosto. Adão se realiza quando encontra alguém que está diante dele (Gn 2,18)[6]. Para viver, o ser humano necessita que alguém lhe dirija a palavra dizendo: tu existes. Pode-se aceitar o peso que cada vida comporta somente quando somos acolhidos. Sem um tu não existe um eu. Poderíamos dizer, também, que a vida é uma viagem até o "tu", ou melhor, uma peregrinação até o "tu". Assim, pois, para realizar-se, o ser humano deve fazer uma viagem e a palavra é o meio para cobrir a distância, para saciar a nostalgia. A palavra busca o encontro. Talvez seria melhor dizer que a palavra autêntica não vive presa, preocupada obsessivamente por si mesma senão que busca o outro, assumindo a responsabilidade. A palavra verdadeira provoca, põe em movimento, abre-se à esperança e ao projeto. Uma palavra autentica não pode perder sua perspectiva escatológica. É, sobretudo, uma palavra que liberta da prisão do efêmero, que infunde audácia para o presente e esperança para o futuro. Os estudiosos da linguagem falam da força pragmática da palavra[7], referindo-se à capacidade ofensiva que pertence à palavra humana. A palavra se dirige a alguém, esperando uma resposta. Os receptores se fazem disponíveis a confrontarem-se com uma alteridade irredutível, correndo o risco de mudar devido à escuta de uma palavra que nunca se deixa possuir completamente[8]. Li que os pigmeus do Congo têm uma grande confiança na floresta, inclusive na escuridão, porque se a floresta é boa, também há de ser a sua escuridão. Quando algum deles sofre ou morre e ao redor se faz escuro, pensam que a floresta dormiu. Então se reúnem em torno do fogo e cantam canções para despertar a floresta e fazer com que de novo seja feliz[9]. Esta história é uma esplêndida metáfora da força pragmática da palavra. Na escuridão da floresta a palavra possibilita que os homens se chamem e assim não percam o seu propósito de viver, como disse um escritor: "como o povo inocente da floresta em um mundo criado por um Deus tão benévolo que, se houver sofrimento, será porque ele dormiu. E,como os hassidim, justo quando a vida está cheia de angústia e dor, esse será o momento em que dançaremos e cantaremos juntos, para despertar o Deus dormente de nossa esperança perdida".

3. Ler é dialogar com o outro

Chegamos, assim, ao ponto final. O que significa tudo isto para um leitor que se encontra diante de um texto bíblico (falo no singular, mas é óbvio que se entende, também, uma comunidade de leitores)? Para retomar o princípio da intervenção: como chegar a uma compreensão da Palavra de Deus encarnada em uma linguagem humana que não se encerre na torre de um puro intelectualismo, mas que tampouco se reduza a uma busca de respostas imediatas prisioneiras do pré-juízo? Como respeitar a encarnação da Palavra que quis escolher as vias da comunicação humana?

Parece-me que a resposta já foi esboçada na descrição do processo comunicativo que acabo de apresentar: tanto o exegeta, o catequista como o pregador têm que estar dispostos a compreender sua própria relação com o texto bíblico em termos de diálogo com o "outro". Em outras palavras, tanto a exegese como a leitura pastoral devem respeitar as três funções que caracterizam a linguagem: a Palavra de Deus deve ser respeitada enquanto Palavra que informa, revela e chama.

O exegeta - como todo crente - tem certamente o dever de compreender a informação do texto bíblico sobre a base do horizonte hermenêutico em que o texto foi gerado. Goethe afirmava que para conhecer um poeta é necessário conhecer sua terra. Não levar em contar os aspectos históricos e culturais que deram vida ao texto significa impedir o encontro com as suas raízes. Renunciar a conhecer a origem significa correr o grande risco de construir, com o texto, o significado que melhor nos convém, violentando a Palavra. O texto tem algo a dizer-me, hoje, mas isto supõe que eu reconheça quem é ele e me esforce por superar a distancia histórica, geográfica, cultural... que me separa dele.

Depois de ter dito isso, no entanto, há que se reafirmar com força que não é possível chegar à verdade do texto bíblico se ele for privado daquela força pragmática que tem para o leitor de todos os tempos. Isto significa que a Bíblia não pode ser reduzida a uma pura expressão informativa. A verdade da Bíblia não é a explicação neutral das coisas. Mesmo no amor e na amizade a exatidão da informação perde peso diante das outras possibilidades que a relação amistosa oferece às pessoas implicadas. A Palavra de Deus é "verdadeira" não só porque dá informações "verdadeiras" mas porque abre as portas para uma relação autêntica. O mesmo termo bíblico "verdade" (emet) encerra no seu significado um projeto de vida e uma fidelidade que não corresponde simplesmente ao conceito grego de aletheia. A "verdade" de um texto bíblico pode ser captada plenamente somente quando se descobre seu aspecto de palavra que interpela, provoca e espera uma resposta. Assim, pois, em um texto bíblico, não somente se delineia uma historia passada como, também, uma história presente. Não se designa só o leitor de um tempo passado - aquele em que foi escrito o texto - mas também o leitor atual. Ao leitor de hoje, como o de ontem, se lhe exige a escuta, no sentido forte que a raiz shama tem no hebraico.

Eis aqui, então, a tarefa - e o esforço - da interpretação (que, na realidade, é a mesma tarefa e o mesmo esforço que implica qualquer relação): eu - homem ou mulher deste século - me aproximo da palavra com minhas esperanças, preocupações, necessidades... e descubro a distância. Uma distância que, no entanto, não é somente um obstáculo que tem que ser superado, mas também um alargamento de visão, profundidade de perspectiva, multiplicação de sentido. Assim, depois de ter superado a distância, através do caminho que vai de mim até o texto, descubro que a Palavra me alcançou, fazendo-se presente em meu presente. A verdade se descobre neste caráter dialógico que vai de mim até o texto e do texto até mim: assim se realiza a "comunhão de rostos", na qual cada um se descobre a si mesmo na profunda fragilidade de seu ser, pondo toda a sua confiança. Na "comunhão de rostos" não se pretende ser irresistíveis a todo custo para conquistar e vencer; na "comunhão de rostos" fica superado, também, o medo que leva a pessoa a fugir (Cf. Gn 3,9); na "comunhão de rostos" se expressa o agape ( o Amor) que não se move pelo desejo de possuir, mas de pertencer e assumir ao outro em sua liberdade. No fundo do ágape é o lugar hermenêutico da Palavra, o lugar apropriado para toda relação autêntica.

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[1] U. Luz, "Erwägungen zur sachgemäßen Interpretation neutestamentlicher Texte", en: Evangelische Theologie 42 (1982), p. 515.

[2] Pontificia Comisión Bíblica, La Interpretación de la Biblia en la Iglesia, p. 65. (Com tradução em Português - NT)

[3] Nascido na Lituânia em 1905; seus pais pertenciam 'a pequena burguesia hebrea.

[4] E. Lévinas, Étique et infini. Dialogues avec Philippe Nemo, Paris 1982; traducción castellana: Ética e Infinito. Diálogos con F. Nemo, Madrid 2000.

[5] Hb 1,1-2 oferece uma maravilhosa síntese da história da salvação em termos comunicação: "Muitas vezes e de muitas maneiras falou Deus no passado a nossos pais por meio dos profetas. Nestes últimos tempos nos falou por meio do seu filho..."

[6] É uma tradução que reflete melhor o hebraico knegdo.

[7] Dol grego pragma (ação): a linguagem não se limita a dizer algo, mas trabalha, atua.

[8] J. Delorme, "Analyse sémiotique du discours et étude de la Bible", en : Sémiotique et Bible 66 (1992), p. 41.

[9] C.M. Turnbull, The Forest People. A Study of the Pygmies of the Congo, New York 1968, p. 93.










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