A necessidade de se fugir das armadilhas de um texto que não se pretende histórico nem tampouco responder ao problema do mal que aflige a humanidade. O texto tem caráter simbólico no sentido etimológico da palavra e não é um manual para se chegar à psicologia da serpente, da mulher ou do homem e nem mostrar o dia a dia de um jardim pedido no tempo.
A
inegável estrutura formal do texto que se mostra bem
construída alternando diálogos e observações
do narrador que dependem literariamente do capítulo anterior.
Um exemplo é a série formulada em três estágios
em torno dos personagens principais: serpente, mulher e homem (no 1o
ciclo de diálogos); homem, mulher e serpente (no
“interrogatório” de Deus); serpente, mulher e homem (no
ciclo dos castigos).
O
contraste existente entre a bondade divina e a busca humana pelo ser
igual a Deus. Isso gera o ciclo de relações complicadas
e faltosas, tais como: esconder-se de Deus, acusações
mútuas, medo e consciência do engano. O homem não
é amaldiçoado diretamente (a serpente sim). A
“expulsão” quase que se caracteriza como um proteger o ser
humano de si mesmo e não um afastamento por mera “ira”
divina ao contrário do que comumente se pensa.
O
gesto divino de vestir o ser humano com túnicas para a pele.
Note-se que, primeiro, homem e mulher se cingem “provisoriamente”
com folhas de figueira. Depois, são “vestidos” por Deus
(definitivamente?). É possível entender que são
revestidos de dignidade. Uma boa semântica da palavra pode ser
feita na Bíblia. A título de exemplo, vale lembrar o
filho “pródigo” que volta à casa e é
re-vestido (túnica) da dignidade de filho.
A
serpente não co-incide com Satanás. Isso será
uma leitura posterior na Bíblia (livro da Sabedoria, Evangelho
de João e Apocalipse). É preciso lembrar que o v.1 é
bastante claro: “era o mais astuto dos animais ‘criados’ por
Deus”. A mitologia vizinha de Israel poderia ser o lugar mais
interessante de re-colocação da imagem da serpente.
O
povo antigo quase toma o Egito por um Paraíso, lugar bom. Mas
Deus mostra que é lugar para se sair, não para se
ficar, é casa de escravidão. No deserto, o povo entende
que é lugar de morte, mas Deus diz que é o passo para a
vida, terra de liberdade, caminho de promessa e de intimidade com
Ele. É no deserto que Deus se casa com seu povo, segundo
Oséias. Isso porque a noiva não pode se dar em
casamento na casa da escravidão. Este paralelo revela o
desenlace de Gênesis 3. A queda do ser humano é para
cima, agora é tempo de crescer e de se assemelhar-se a Deus.
Não de um modo mágico (fruto), mas no percurso natural
da vida e da proximidade com o Criador (vestidos por Ele).
Escolhe,
pois a vida.
Dt 30,19
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