29 de julho |







Conclusões sobre Gêneses 3

A necessidade de se fugir das armadilhas de um texto que não se pretende histórico nem tampouco responder ao problema do mal que aflige a humanidade. O texto tem caráter simbólico no sentido etimológico da palavra e não é um manual para se chegar à psicologia da serpente, da mulher ou do homem e nem mostrar o dia a dia de um jardim pedido no tempo.

A inegável estrutura formal do texto que se mostra bem construída alternando diálogos e observações do narrador que dependem literariamente do capítulo anterior. Um exemplo é a série formulada em três estágios em torno dos personagens principais: serpente, mulher e homem (no 1o ciclo de diálogos); homem, mulher e serpente (no “interrogatório” de Deus); serpente, mulher e homem (no ciclo dos castigos).

O contraste existente entre a bondade divina e a busca humana pelo ser igual a Deus. Isso gera o ciclo de relações complicadas e faltosas, tais como: esconder-se de Deus, acusações mútuas, medo e consciência do engano. O homem não é amaldiçoado diretamente (a serpente sim). A “expulsão” quase que se caracteriza como um proteger o ser humano de si mesmo e não um afastamento por mera “ira” divina ao contrário do que comumente se pensa.

O gesto divino de vestir o ser humano com túnicas para a pele. Note-se que, primeiro, homem e mulher se cingem “provisoriamente” com folhas de figueira. Depois, são “vestidos” por Deus (definitivamente?). É possível entender que são revestidos de dignidade. Uma boa semântica da palavra pode ser feita na Bíblia. A título de exemplo, vale lembrar o filho “pródigo” que volta à casa e é re-vestido (túnica) da dignidade de filho.

A serpente não co-incide com Satanás. Isso será uma leitura posterior na Bíblia (livro da Sabedoria, Evangelho de João e Apocalipse). É preciso lembrar que o v.1 é bastante claro: “era o mais astuto dos animais ‘criados’ por Deus”. A mitologia vizinha de Israel poderia ser o lugar mais interessante de re-colocação da imagem da serpente.

O povo antigo quase toma o Egito por um Paraíso, lugar bom. Mas Deus mostra que é lugar para se sair, não para se ficar, é casa de escravidão. No deserto, o povo entende que é lugar de morte, mas Deus diz que é o passo para a vida, terra de liberdade, caminho de promessa e de intimidade com Ele. É no deserto que Deus se casa com seu povo, segundo Oséias. Isso porque a noiva não pode se dar em casamento na casa da escravidão. Este paralelo revela o desenlace de Gênesis 3. A queda do ser humano é para cima, agora é tempo de crescer e de se assemelhar-se a Deus. Não de um modo mágico (fruto), mas no percurso natural da vida e da proximidade com o Criador (vestidos por Ele).

Escolhe, pois a vida. Dt 30,19










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