"Tudo o que move é sagrado"
Texto gentilmente cedido ao rascunhus
por: Melissa Rocha - Cientista social, musicista e cronista
Belo Horizonte – MG
Sacramento,
no popular, é ritual que marca as fases da vida do crente. É
um conceito cristão. “Sacramento” é "símbolo
de coisa sagrada" ou "forma visível de uma graça
invisível". (Santo Agostinho) Sacramento vem do latim -
sacramentum,
mysterium,
traduzidos do grego mysterion.
O mistério não significa, porém, uma deficiência
humana, um “não-saber” ou “não-atingir”. O
mistério leva o ser humano ao conhecimento do outro, e a
maneira adequada de se conhecer o outro é amando-o. O mistério
é invisível, o sacramento é o sinal dessa graça
invisível.
Na
tradição cristã-católica esse Mistério
é o Acontecimento Pascal, a celebração da vida,
morte e ressurreição de Cristo e a doação
do Espírito Santo. Os sacramentos, pois, condensam a
celebração do todo
da vida,
a festa.
Em
cada sacramento celebramos a graça de Deus presente em nossa
vida à luz do Mistério Pascal de Cristo, recordando
este mistério. Mesmo antes ou sem a celebração
dos Sacramentos a
graça de Deus está presente.
O sacramento é a celebração desta presença.
(Hottz, p.18)
A
graça de Deus não se trata de algo fora do ser humano,
mas a relação deste com Deus. Graça é
dom, ato recíproco e gratuito, não é mérito
do ser humano, graça é charis
(grego),
favor sem recompensa, Deus se doando.
Se
sacramento é sinal visível de graça e graça
é Deus presente, como podem os sacramentos ser meramente
ritualísticos, como são entendidos na grande maioria
das vezes? Sacramento é a celebração, a foto e a
lembrança de, por exemplo, batizado, primeira Eucaristia? Como
pode o todo da vida não ser sacramento?
Estar
na presença do outro, amar o outro e, assim, conhecê-lo,
é fazer e tornar a vida momento de encontro sacramental.
É
sacramento uma troca de olhares mútuos, recíprocos. É
sacramento um bom dia ao vizinho. É sacramento o encontro a
dois a fusão, complementação de corpo, mente e
alma animus
e anima.
Em
tudo isso podemos observar como somos seres – como diz Leonardo
Boff – de estrutura pascal.
Fazer
da vida sacramento é admitir, viver e reconhecer a presença
e penetração da graça de Deus em nossos dias. Os
sacramentos da Igreja são convites à vivência da
experiência de Deus. São convites a experimentar Deus, a
estar na e ser transcendência. Assim, podemos encontrar o
sagrado naquilo que, por vista grossa, é profano. Tanta coisa
é profanada por nós mesmos... O amor, a família,
a amizade, a relação com a natureza, enfim, a relação
com o alter
(outro),
que não é uma pessoa ou outra, mas um todo de gentes e
de gente. Deixamos secularizar aquilo que é o mais sagrado de
todos os acontecimentos: a vida. A vida enquanto dom, nosso e de
Deus; a vida enquanto direito; a vida enquanto existência; a
vida enquanto essência humana, e, logo, divina.
A
vida precisa do cuidado de mãos que sabem cuidar – ou de
mãos que podem aprender a cuidar, de gestos que amam, gestos
que purificam, palavras que vivificam, olhares e visões que
plenificam, abraços que complementam e completam, ações
que a engrandeçam, doação de coração,
espaço para a transcendência.
Viver
é o todo. É a grande liturgia! É permanecer e
movimentar-se num cosmos de relações íntimas com
o coração de Deus a todo instante. Porque estar no
coração de Deus é pisar neste chão,
caminhar com os pés e tudo o que somos em direção
a uma “mística de tudo”, ou uma “espiritualidade na
carne quente e mortal, dimensão do ser humano” (Boff, p.51).
Viver é, por excelência, um ato sacramental. É sempre selar compromisso, é sempre criar encontro e espaço privilegiado para a transcendência.
Por isso, já dizia São Tomás de Aquino: “A TODA VIDA, TODA GRAÇA!”
BOFF,
L. Espiritualidade
– um caminho de transformação.
Rio de Janeiro: Sextante, 2006.
BOFF,
L. Tempo
de Transcendência – o ser humano como um projeto infinito.
Rio de Janeiro: Sextante, 2000.
HOTTZ,
P. R. Sacramentos
I.
Apostila do Instituto Diocesano de Teologia Monsenhor Barreto.
CIC
– Catecismo
da Igreja Católica.
São Paulo: Loyola, 2000.
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