VV.AA. Marcos como relato: introducción a la
narrativa de un Evangelio. Ediciones Sígueme: Salamanca, 2002, 222 p.
Originalmente publicado em inglês (já na segunda edição),
esta leitura foi feita sobre o texto espanhol traduzido por Rosa Ana Martín
Vegas. Marcos como relato é uma obra séria no cenário dos estudos sobre
o segundo evangelho. De envergadura considerável e fácil leitura, o livro
demonstra, no seu conjunto, o esmero e a competência de seus autores.
David Rhoads é professor de Novo
Testamento na Lutheran School of Theology de Chicago. Joanna Dewey é
professora, na mesma área, na Episcopal Divinity School de Cambridge
(Massachusetts). Quanto a Donald Michie, é professor de língua e literatura inglesas
no Carthage College de Kenosha (Wisconsin).
Como o próprio título sugere, o
olhar sobre o evangelho se faz na perspectiva de sua narrativa. Uma narrativa
que, como pontua os autores, revela “um mundo de conflitos e suspense,
surpreendentes alterações e estranhas ironias, de comparações e significados
ocultos, ações subversivas e intrigas políticas” (introdução). Estas indicações
já apontam para o(a) leitor(a) a riqueza deste segundo livro do Novo
Testamento.
Antes de passar, propriamente, ao conteúdo da obra, faz-se
necessário observar alguns detalhes. A própria forma do texto já salta aos
olhos dos(as) leitores(as) com seu caráter distinto: não há uma única citação
numérica – no corpo do texto – de capítulos ou versículos. Isso se deve à razão
de que os autores ressaltam (de fato) a obra como relato, como narração. Merece
destaque, também, a riqueza bibliográfica que fica à disposição de quem toma
este livro nas mãos. Nada menos que 128 notas de obras vultosas e periódicos
importantes, seja para a teologia do texto ou para o seu caráter literário.
Já nas primeiras páginas, é
possível se deparar com uma fácil leitura da obra. A organização é simples e
clara em 8 partes com 1 epílogo e dois apêndices de exercícios práticos.
O Evangelho de Marcos: após a
introdução, o autor é rapidamente colocado em contato com a tradução usada
pelos autores bem como suas opções. Esta tradução se baseia em uma reconstrução
do texto grego “original” feita pelos autores mas há, também, uma longa nota
explicativa para a tradução espanhola que está sendo usada (p.23). Da p.27 até a p.58 está o texto
linear de Marcos sem indicações (no seu interior) de capítulos e versículos
como mencionado acima. É digno de nota que o texto termina em Mc 16,8. Sobre
algumas expressões muito usadas, vale ressaltar “soberania de Deus” (em lugar
do conhecido Reino de Deus) e o nome de Pedro como “Rocha”.
O narrador: nesta
parte, o(a) leitor(a) é convidado a prestar atenção ao narrador do relato. Este
é figura essencial da obra com “onisciência ilimitada”. Significa dizer que não
é restringido pelo tempo e espaço, mas move-se com extrema liberdade e conduz o
leitor por caminhos deliberadamente preparados. Ele guia a leitura, faz
sugestões e “abre” os olhos de quem lê para elementos ou detalhes que,
eventualmente, não tenha percebido. Estas observações dos autores são
fundamentais para os que lêem os relatos bíblicos. Implica na noção de que o
texto não é inerte, neutro ou inocente, mas “vivo e eficaz”. Ignorar esta
realidade literária é meio caminho para uma leitura deturpada ou carregada de
pressupostos.
Os cenários: na
narrativa não se pode deixar de prestar atenção aos cenários. Eles se
configuram como a tela onde passa o filme do narrador. Contudo, a obra chama a
atenção para o fato de que estes cenários não são inertes panos de fundo, mas
representam planos primeiros e destacados nas funções dos personagens, seus
conflitos e seu ambiente. Eles podem ser cósmicos, políticos ou de viagens, mas
em cada um deles as atuações de Jesus e de seus interlocutores são iluminadas e
podem ser mais bem compreendidas.
A trama: este
elemento é, literalmente, o texto, isto é, o tecido dos acontecimentos. Aqui o
leitor pode observar as conexões, os “links”, o desenrolar e as digressões do
que está sendo contado pelo narrador. Disso decorre a compreensão e o sentido
da narrativa. Não é um ponto isolado, mas importante engrenagem no mecanismo
que envolve o narrador, os cenários e os personagens. O narrador de Marcos se
mostra surpreendente na trama, com perícia inegável e agudeza de inteligência.
Os personagens: aqui
os autores dedicam um maior número de páginas já que tratam de Jesus, das
autoridades judaicas, dos discípulos e da multidão. Os perfis são assinalados
detalhadamente e cada grupo é colocado no seu lugar dentro do relato. Cada
elemento que foi tratado antes, na obra, recebe aqui uma ampliação de
significado uma vez que se toca os “atores” da trama. O leitor tem, então, a
oportunidade de olhar mais de perto o universo de cada personagem, posicionar-se,
criticar, desconfiar, simpatizar-se ou não. Também nesta parte, Marcos como
relato se mostra claro e não perde o seu foco inicial de apresentar a narrativa
do segundo evangelho.
O leitor: esta é
a conclusão. Tudo o que os autores pontuaram aparece nesta parte como o impacto
sobre o leitor de Marcos. É dizer que a narrativa tem uma função, que ela não é
neutra e que incide diretamente sobre aquele(a) que lê. De todas as peças do
mosaico do relato a junção de sentido passa, também, pela observação do leitor.
Este é convidado a responder ao texto. Entra aí a noção de leitor ideal que os
autores trabalham. O mundo do narrador é “forjado” todo em vista do leitor.
Este (o leitor) é o reflexo do narrador (p.190).
No epílogo da obra, os autores
fazem algumas considerações sobre suas intenções neste livro. Trabalham a
leitura como diálogo e a ética nesta leitura. Os avisos são importantes para
que, ao se aproximar do texto - e neste caso o de Marcos -, se tenha cuidado
para não impor as próprias idéias mas, antes, atentar-se para o fato de que há
um diálogo entre relato e leitor. Assim:
“Las personas de cada situación social tendrán
aciertos así como limitaciones al leer un relato, porque cada una verá las
cosas desde un lugar de la sociedad distinto de otros. Al leer juntos en torno
a una mesa redonda en la que ni se privilegie ni si margine ninguna
perspectiva, somos capaces de ver con más claridad cómo podemos distorsionar un
reato o no ser capaces de entenderlo en sus propios términos y qué partes podemos
estar ignorando.” (p.205-206).
Há muito mais no livro. Não
quero que os(as) leitores(as) desta resenha se dêem por satisfeitos. Isso seria
o fracasso destas anotações. Marcos como relato é leitura importante,
dentre outras coisas, porque pode ser ampliada a outros corpora tanto do
Novo quanto do Antigo Testamento.
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