Caiu Israel
e agora cai Judá.
O fim de um mundo!
Uma entrevista com quem [realmente] conhece a história e seu significado.
pelo prof. Altamir Andrade
O Exílio de Judá em Babilônia representou, na história de Israel, uma crise muitíssimo profunda. Nossas informações não são tão claras e nem tão abrangentes. Por isso, acompanhei os alunos de Sagrada Escritura em sua pesquisa a fim de esclarecermos algumas dúvidas. Eles procuraram algumas pessoas que se mostraram muito solícitas em colaborar.
Os entrevistados foram alguns descendentes dos redatores do 2o Livro dos Reis, bem como do profeta Jeremias e também do profeta Ezequiel. Reunidas estas pessoas, começamos o trabalho com o objetivo de alargar nossa compreensão acerca deste período tão marcante.
O texto seguinte é parte da entrevista. Traz as principais perguntas dos alunos à Sra. Amonita, ao Sr. Ben Nabí e ao Sr. Ben Ezequiel. A primeira pergunta é dirigida a Amonita, descendente dos redatores de 2o Reis:
Alunos (Al): Sra Amonita, é um prazer tê-la aqui e agradecemos sua colaboração. Queremos que nos diga qual o contexto histórico que antecedeu à queda do reino de Judá.
Amonita (Am): Caros colegas, em primeiro lugar, obrigada pela oportunidade. Não se pode deixar de mencionar o grande rei Josias. Nossos pais nos contaram que ele foi o melhor rei de Judá. Seu reinado se estende de 640 a 609 aC. Promoveu uma grande reforma religiosa e fez tudo o que é agradável aos olhos do Senhor (2Rs 22,1-2). Foi um tempo muito bom! O rei Josias, no entanto, interferiu numa guerra entre o Egito e a Assíria morrendo nesta batalha por volta de 609. Seus sucessores foram: Joia-Kim (609-598), Joiachim (598-597) e Sedecias (597-587). Atenção: não confundam os dois primeiros, cada um é um. O primeiro se revolta contra a Babilônia e então acontece a primeira deportação - e sobre isso Ben Nabi falará melhor - ; o segundo também é deportado e cego; já Sedecias se revolta contra Nabucodonosor e acontece, então, a segunda deportação. É justamente no tempo deste que ocorre a invasão da cidade e a destruição do Templo.
Al: É perceptível um panorama bastante conturbado após a morte de Josias. Queremos saber de Ben Nabi, descendente do grande profeta Jeremias, um pouquinho mais sobre os detalhes destas deportações, possíveis datas e números.
Ben Nabi (BN): É muito gratificante participar deste debate e lembrar, com emoção, do que foram aqueles anos difíceis e tão significativos para todos nós. Sei, por meio do que meus ancestrais disseram, que a primeira deportação, com data em 598, levou para o cativeiro 3023 pessoas; a segunda, em 587, 832 pessoas e a terceira, em 582, 745 pessoas foram levadas. (Jr 52,28ss). É preciso, no entanto, considerar alguns aspectos acerca destes números: o total de 4600 deve ser multiplicado por 4 ou 5 tendo em vista que não se contavam as mulheres e as crianças. Sendo assim, essa cifra subiria para 20 ou 25 mil pessoas.
Al: É muito impressionante esta realidade. Sabemos que seu antepassado, Jeremias, enviou uma carta aos exilados. Você poderia comentá-la para nós?
BN : Perfeitamente! É uma carta muito longa que se encontra no c.29 de seu livro. Ali encontramos notas de incentivo ao bom relacionamento entre os deportados e o povo da terra de Babilônia no sentido de se casarem, plantarem vinhas, viverem em paz e não se deixarem enganar por profetas que falam mentiras ou adivinhos. Enfim, encoraja o povo a manter a fé porque o Senhor vai libertá-lo.
Al: Ben Ezequiel, até agora em silêncio, poderia nos falar um pouco do seu ancestral, de seu livro e de sua pessoa?
Ben Ezequiel (BE): Agradeço, também, este espaço e, no silêncio, meditava o quão é doído e emocionante rever toda esta história. Este debate toca o nosso coração tantas vezes endurecido como pedra e o relembra da sua condição de carne. O que ouvi de meus pais quero lhes transmitir: parece que Ezequiel teve a sua primeira visão no tempo de Joiachim (o 2o). Ele era casado e perdeu sua esposa (24,16ss). Sofreu com a deportação já que era um dos deportados (1,1). No livro se percebe muitos discursos de ameaças antes da queda (1-24), alguns oráculos contra os povos (25-32) e também discursos de promessa; no fim (40-48) fala de restauração.
Al: Parece que há uma referência a um período em que o profeta teria ficado mudo?
BE: Sim. Talvez a fase represente apenas o fato de seu silêncio na vida pública (3,25) já que fica preso em casa. Podemos, também, ver uma relação direta entre o seu mutismo e as ações simbólicas. Contudo, é difícil detalhar este período tendo em vista a redação do livro.
Al: Às vezes se ouve dizer que Ezequiel teria sido o "pai do judaísmo". O senhor concorda com essa afirmação?
BE: Acredito que podemos ver nesta expressão um certo exagero. Contudo, ele pode ser considerado como que uma ponte entre o israel pré-exílico e o judaísmo da restauração. O profeta parece apontar nestes dois sentidos, isto é, fala da interioridade e vitalidade da religião, da realidade do pecado, mas também aponta para a certeza do juízo de Deus. Deste modo, assim como o judaísmo que se segue no pós-exílio, o profeta valoriza muito o templo e as observâncias cultuais e isso bem mais que os profetas anteriores.
Al: Sabemos que o período do exílio marca uma linha divisória na história de Israel. Com a destruição do estado, o culto oficial é supresso e parece chegar ao fim a antiga comunidade de culto nacional. Israel se torna - achamos que se pode dizer assim -um grupo de pessoas derrotadas e sem identidade. No entanto, é maravilhoso perceber que sua história não termina apesar de acontecer o fim de um mundo. Gostaríamos de saber a opinião de cada um de vocês acerca do que foi o período do exílio em Babilônia.
Am: Vejo que estão, realmente, muito bem informados acerca desta crise. Eu, no entanto, não tenho muito a dizer sobre este período. Me limito a dizer que Joiachim (o 2o) recebeu anistia de Evil-Merodac, o filho e sucessor de Nabucodonosor passando a comer na mesa do rei (2Rs 25,27ss). Com isso indico os inícios de uma esperança nova.
BN: A dificuldade é a mesma para mim. Sei dizer que Jeremias anunciara o castigo e por isso foi muitas vezes castigado pelos seus contemporâneos. Todavia, caiu nas graças dos babilônios que o consideraram com um amigo. Eles até lhe ofereceram a oportunidade de escolher entre ir para a Babilônia ou ficar em Judá. Escolheu Judá e exortou o resto que lá ficou (39,1-40,12). Queria acentuar uma curiosidade: as fontes extrabíblicas são raras ou inexistentes sobre este período porque este acontecimento não interessou aos povos vizinhos ou não teve relevância.
BE: Também as informações que tenho não são muito exatas. Quero dizer que, embora não possamos diminuir as dificuldades e humilhações dos exilados, parece que não tiveram um tratamento demasiado severo. Ezequiel contou que teriam ficado em colônias, como que confinados (3,15). Não eram livres, mas também não eram prisioneiros - dá pra entender? - A carta de Jeremias já assinalava que poderiam plantar (29,5ss) e construir casas. Contaram-nos, nossos antepassados, que até podiam se reunir e ter uma espécie de vida comunitária (8,1; 14,1; 33,30ss)
Al: Queremos agradecê-los por esta gentileza tão esclarecedora. Foi muito bom conversar com quem conhece a história a fim de bebermos em fontes interessantes. Gostaríamos de saber, por fim, o quê os senhores nos sugerem para pesquisas futuras sobre o pós- exílio.
Am: Agradeço a oportunidade e queria, também, deixar uma pergunta para vocês: "Já leram, Esdras e Neemias, Ageu e Zacarias?" São livros importantes para a compreensão do imediato pós-exílico, a reconstrução e outros detalhes.
BN: Também sugiro a mesma leitura e quero estender o convite a um olhar atento sobre o Salmo 137. Ali temos um quadro bem pintado sobre a situação dos exilados e sua sorte. Uma boa pesquisa levará em consideração a interpretação teológica destes períodos.
BE: O que aqui dissemos é muito pouco, mesmo porque o tempo é curto. Sugiro uma nova etapa de discussões com gente mais autorizada para falar do pós-exílio e do judaísmo nascente.
Agradeço o empenho dos alunos e a disponibilidade destas pessoas que muito contribuíram. Aguardamos outra oportunidade para fazer novas entrevistas como essa. É assim que podemos, cada vez mais, conhecer e refletir sobre pontos tão importantes para a teologia bíblica e para a vida de cada um de nós.
Até lá!
A.A.
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