27 de abril |





Estrada sem fim
O grito
Cronélius
Abraço
Uma manhã distante
Aceno


Estrada sem fim

Tonico desceu do ônibus, já pelas dez da noite, e ajeitou o saco de compras sobre as costas. Procurou se posicionar bem à beira do asfalto evitando enfiar seus pés nalgum buraco por causa da escuridão. Naquela altura da estrada não havia nenhuma casa por perto e ele esperou que o ônibus saísse para então acostumar seus olhos ao lugar onde estava.

Não foi necessário grande esforço porque conhecia como ninguém aquela estrada que levava à fazenda "Árvore Torta", sua casa. Outro ponto que o ajudaria era a noite de lua cheia, porém, naquele momento, a lua nem tinha mostrado sua cara amarelada. Notava-se, apesar disso, que seu clarão já aparecia atrás dos espigões, do outro lado do rio.

Tonico respirou fundo. Fez uma cara de quem carregava um peso extraordinário contrastando com o pouco de compra que levava: dois pacotes de macarrão, um pacote de café, dois cocos da Bahia, três rolos de fumo forte, dois pedaços de goiabada, um pacote de arroz e um par de botas sete léguas que comprara no armazém.

Pôs-se, enfim, após acender um de seus cigarros de palha, a caminhar pela estradinha em direção à Árvore Torta. O cigarro ajudaria a passar o tempo e ainda contribuiria para espantar os pernilongos. A lua inteiramente aparecera e, naquele fim de mundo, parecia zombar de Tonico. Ela deslizava mansamente pelo céu ao contrário dele que tropeçava nas pedras e enchia a barra da calça de poeira.

Tonico era um homem de uns trinta e oito anos. Muito forte e trabalhador. Dedicado à vida do campo e, se ia à cidade era por necessidade mesmo. Não gostava de sair e sua mulher constantemente o chamava de "atrasado". O que ele mais queria, no entanto, era não ter que se enfiar em roupa nova e sapato apertado para ir a lugar algum. Essa era a sua vida e o seu gosto. O resto podia esperar.

Desta feita, em razão de umas vendas de novilhas e outras compras de adubos, acabou ficando mais tempo na cidade e se aborrecera por isso. Era um homem muito ligado à terra e à tradição de seus antepassados. Extremamente supersticioso, era o menos indicado para andar à noite e isso ele o sabia muito bem.

Já eram quase onze da noite e, parecendo perceber isso de repente, Tonico apertou o passo. Ainda estava longe. Recapitulou na memória os lugares por onde teria, ainda, que passar. No céu desnudo do campo, mesmo em noite de lua cheia há uma nuvem atrevida que ousa passar rapidamente diante da rainha da noite. Neste momento os sapos silenciam no brejo, as corujas soltam seu pio mais estarrecedor e os curiangos se agitam voando de um ponto a outro da estrada. Foi o que aconteceu a Tonico naquele instante. A brevidade da nuvem pareceu-lhe ter durado séculos. Era a hora que pensava no exato lugar mais complicado que teria que passar: a "meia-noite".

Meia-noite era uma curva da estrada ladeada por dois altos barrancos. Tinha uma descidazinha cheia de pedras e um pequeno córrego que atravessava a estrada mais abaixo. Naquele lugar a luz da lua não incidia a não ser pelas duas da manhã e, o pior, dele se contava coisas da arca do velho.

Apesar da brisa suave Tonico sentiu que seu rosto suava quando estes pensamentos brotaram como a água do corguinho. Tentou apertar mais o passo, mas o que sentiu foi uma espécie de bambeza nas pernas. A "meia-noite" se aproximava. A nuvem passou. Os sapos recomeçaram o concerto e a coruja voôu para mais longe. Tonico se animou um pouco mais e procurou pensar outras coisas. Pobre homem! Quanto mais se tenta não pensar é que os pensamentos desabrocham e florescem com maior facilidade. Lembrou-se então, Tonico, o que seu avô contava: entre onze da noite e uma da manhã, um ser esquisito caminhava ali pelos lados da "meia-noite" emitindo um estranho som...

trac....trac....trac....rrap trac.....trac.....trac.....rrap.....

Agora Tonico já não mais suava. Nem sequer respirava porque já se assustava consigo mesmo. Apertava de tal maneira o saco de compras entre os dedos que estes já estavam em brasa. Tentou invocar alguns santos e rezas que sua mãe lhe ensinara mas não lembrou nem duns nem d'outros. Amaldiçoou a hora em que foi vender novilhas a seu compadre Joatão e comprar adubos na casa agropecuária. Agora nada já adiantava. Num reflexo da lua, sacou seu relógio de bolso e leu onze e dez. Mais uma vez seu corpo foi tomado de uma friagem sem explicação e ele já dava os primeiros passos dentro da "meia-noite".

Foi então que aconteceu o encontro tão temido. Aquele que por gerações o aviso foi passado e que ele, Tonico, sentia transgredir naquela noite: "Não passem pela 'meia-noite' entre onze e uma da manhã". Agora nada já adiantava. Em seus ouvidos já chegava o ruído temido por séculos....

trac...trac...trac.... rrap trac....trac....trac... rrap....

Tonico sentiu que seus pés vacilavam. Que sua boca estava seca e que seus olhos não viam nada naquele instante. Nem por isso parou ou pensou em correr, mesmo porque suas pernas não lhe obedeceriam e ele sentia andar mecanicamente. A mistura de calor e frio por seu corpo já amolecera a goiabada e fazia com que o fumo cheirasse ainda mais forte. Foi aí que ouviu a voz: "Boa noite, Tonico!"

Quase desmaiando e branco de pavor, Tonico viu passar seu compadre Zé da Serra que, àquela hora, vinha da fazenda e descia para a vila arrastando seu chinelo velho e segurando sua sacola de alça comprida que, de vez em quando, esbarrava nas pedras soltas da estrada...

trac...trac...trac.... rrap trac....trac....trac... rrap....





O grito

Teófilo passava pela rua quando ouviu um grito. Do meio do emaranhado de casebres e da pouca iluminação, viu um pequeno galpão de paredes brancas. Pareceu-lhe que o grito de lá viera e se dispôs a investigar.

Apressou-se um pouco e cruzou o resto da rua que lhe separava do galpão que se situava numa esquina. O lugar era assim: uma pequena rua calçada (a que Teófilo percorria) descia longamente no centro da vila. Era cortada por uma outra sem calçamento onde se viam poças d'água: resto de chuva e resto das bacias que as mães lavavam as crianças e jogavam a água suja pelas janelas em direção à rua. Alguns gatos muito magros disputavam restos de lixo pelo chão em busca de algo para mastigarem. Crianças de olhos tristes vagueavam até virem cair o manto estrelado da noite sobre aquelas pardas paragens.

A primeira casa era vistosa: tinha um aspecto mais imponente delineado por suas altas varandas. Da segunda casa em diante - sempre de modo decrescente na rua - o aspecto passava do regular ao ruim. Algumas com pedaços de papelão na janela e outras com os telhados a beijar as calçadas.

Teófilo alcançou o galpão e procurou a porta. Não demorou muito para encontrá-la. Estava entreaberta e ele entrou. A cena que viu foi, no mínimo, curiosa: um homem sem camisa e com calças surradas segurava, em uma das mãos, uma lata de tinta preta e, na outra, um pincel. Viu Teófilo entrar mas fingiu não notá-lo. Teófilo percebeu isso e não deu importância. De quando em quando, o homem dava um grito e, com o pincel, escrevia uma palavra na parede muito branca. O grito podia ser a própria palavra ou algo ininteligível.

Teófilo encostou-se, muito assustado, em um canto e pôs-se a observar aquela estranha cena.

Água!!! Gritou o homem! Escreveu, a seguir, a palavra na parede e, com os olhos bem abertos e uma tremenda agitação, pôs-se a falar: "Se soubesses que bem é este o deixaria para teus filhos! Se soubesses de sua beleza nunca mais olharias num espelho! Se sentisses o seu beijo, teus lábios seriam outros! Se te enamorasses dela a protegeria como a teu próprio corpo! Se conversasses com ela aprenderia com seu sussurro!"

Calou-se por um instante com os olhos fixos no chão. Depois deu novo grito e escreveu a palavra justiça na parede.

"Já não sei o que significa - prosseguiu. Quem criou esta palavra? Porque minhas mãos são obrigadas a escrevê-la? E meu pensamento a pensá-la? Por que sinto que a escrevo e a penso em vão?Onde está ela agora? Na sua ausência as bocas morrem de fome e os corações de sede!Ó justiça por que tardas? Mostra-me teu rosto para que eu me apaixone por ti! E teu sorriso para que eu veja teus dentes! O que faço não é justiça pois só faço para mim! O que promovo não é justiça porque só vejo o meu interesse! O que apregôo não é justiça porque só para mim serve esta fala!"

Novo silêncio. Teófilo perplexo. Novo grito. Religião!

"Não sei se vale à pena ter, pois parece que quem a tem era melhor que não a tivesse. Uns dizem seguir a Cristo e outros dizem seguir a outros. Mas muitos deles seguem a si mesmos. Apascentam a eles próprios e não despertam a ninguém. Não creio que a morte seja um fruto da religião. Mas estou quase me convencendo de que a vida é secundária nela. Não falo da morte física, mas daquela que a língua causa! Língua confusa e causadora de divisão. É por isso que te digo: não procures Babel na Bíblia. Procures, hoje, em tuas ruas e verás as torres elevadas e a confusão das línguas. O descaso e a indiferença para com aqueles que mais precisam de vida. Vida para amar, vida para servir, vida para ser. Ser para a vida e amar para viver. Religião! Será que este é um cálice que o Criador me prometeu? Se for acho que não sou digno dele! E nem sei se é um cálice ou um pedaço de pão! Não sei se o primeiro é para eu beber ou passá-lo a alguém. Se o segundo é para eu comer ou guardá-lo a sete chaves, esperando que apodreça!"

Teófilo se senta! Mãos segurando o rosto. Cada vez mais sem fôlego e eis que novo grito salta da garganta do estranho homem: Evangelho!

"Que palavra de belo tom. Mas quão dissonante é sua prática! Uns praticam a religião, mas não praticam o evangelho! Procuram enigmas em suas palavras mas não sabem ler o que está claro. Deturpam estas mesmas palavras em favor de seus planos. Assim justificam seus próprios erros e testemunham contra si mesmos. Estou ajuntando algumas pedras de moinho para presentear os tantos que têm prazer em escandalizar os pequeninos!"

Teófilo saiu sem rumo. Com a cabeça meio girando. Atrás de si ficou aquele misterioso sujeito escrevendo e gritando sem ouvintes e sem leitores. Teófilo foi embora triste, porque tudo o que o homem falou, ele praticava...

.... desde a sua juventude...





Cronélius

Cronélius olhou para trás e viu um jovem. Com ele viu outros jovens e mulheres, e moças, e crianças. Ele falava bonito e simples, falava de sementes e de reinos, de sal e de luz. Viu fariseus e doutores. Viu crianças brincando através de uma janela. Uma janela empoeirada, mas clara. Cronélius andou por ruas de pedra que os romanos construíram. Viu marcos fortes que teriam servido de fronteiras para selêucidas e lágidas, cretenses e árabes. Andou por palácios onde procuradores romanos exerciam poder cruel. Cruzou rios e trilhas. Foi à Síria. Voltou à clara Galiléia e banhou seus pés no seu lago. Peregrinou por Jerusalém e sentiu cheiros de holocaustos. Ouviu notícias do além mar. De como refletiam sobre as coisas primeiras na Grécia e de como eram feitas as leis em Roma. De como eram fortes suas colunas e arcos.

Gostou dos perfumes importados e das riquezas das ilhas. Comeu pão de cevada e de trigo, andou com pobres e com ricos. Colheu figos deliciosos e conheceu o azeite de Téqua. Cronélius andou por muitos lugares e muitos lugares andaram por ele. Mas Cronélius se cansou daquela terra e quis ir mais adiante. Foi então que viu leões, viu fogo e viu pedras sobre pedras. Viu homens que queriam ser deuses e por isso perseguiam e matavam outros homens. Matavam crianças e matavam mulheres. Viu muito sangue. Quis sair depressa daqueles lugares.

Cronélius andou mais. Viu castelos, construções altíssimas, incenso e altares de mármore. Viu crucifixos e fome. Cidades cercadas de muros e camponeses. Passou noites e noites em mosteiros distantes, retirados da cidade. Bebeu vinho e rezou. Viu senhores bem vestidos e eclesiásticos com largas franjas em suas roupas. Viu passarem cavaleiros com pressa e com lanças, a lutarem com dragões de outros reinos. Cronélius achou tudo isso muito confuso, mas continuou seu caminho.

Na manhã seguinte, entrou numa cidade larga, onde as pessoas andavam depressa. Conversavam sobre a vida e sobre a morte. Viu um grupo maior que discutia sobre o ser humano. Andou por galerias e viu quadros de cores belas. Numa esquina, sob o sol, deparou-se com um homem sentado a um canto. Ele escrevia numas folhas de papel algo que levava o título “Crítica da razão...” que Cronélius não conseguiu ler o resto. Viu gente pobre e pão pobre, gente que morria de doenças terríveis. Ainda viu guerras e sangue e concluiu que isso não era uma coisa tão antiga e nem tão nova.

Viu holocaustos e cheiros desagradáveis. Quis atravessar a rua e quase foi atropelado por um automóvel que passou rapidamente dobrando atrás de prédios reluzentes e coloridos. No céu, alguns belos pássaros de aço voavam ameaçadoramente. Ouviu barulho de telefones e computadores quase humanos. Belas pessoas de roupas elegantes que não se cumprimentavam. Ele andou desinteressado entre um mercado e um shopping. Viu homens preparando guerras em gabinetes e pessoas com guerras maiores dentre de si. Bebeu, com devoção, um pouco de água num bar. À noite foi ao cinema e depois voltou ao hotel.

E, no outro dia, Cronélius saiu da cidade e caminhou, resolutamente, rumo ao futuro...





Abraço

Era, já, uma velhinha. Tinha os cabelos muito brancos. Morava sozinha, na roça. Ao redor de sua casa muita coisa que ela mesma havia plantado: pés de abóbora, quiabos em quantidade, verduras, laranjeiras e flores. Animais também não faltavam a seu redor e pareciam ser a sua companhia diária: porcos, um cachorro, um gato e galinhas que fazia gosto ver.

Todos os dias era a mesma batida: levantar bem cedo, tratar dos animais que a esperavam na porta com um ruído sem tamanho, regar as plantas e mexer na cozinha.Tudo muito pobre. Quase nem tinha utensílios na cozinha, porém, tudo muito limpo. Seus vizinhos tinham se acostumado com sua vida e ela sempre repetia: “meu lugar é aqui!”Com isso punha um ponto final em muitas cogitações acerca de ir para a cidade morar com sua filha. Sua única filha!! Era esta a razão de sua vida. Seu olhar deslizava quase que involuntariamente para a estrada ao longe esperando ver sua querida aparecer depois de tanto tempo. Quando a filha partiu não chorou. Mas só Deus sabe quantas lágrimas rolaram de seus olhos nos longos anos que se seguiram. “Fora procurar uma vida melhor e mais digna do que a minha”, pensava. Mas não negava ao seu coração a saudade que sua ausência lhe presenteava.

Sempre dizia aos vizinhos: “Ali naquela curva da estrada parece que o mato nem cresce. De tanto que meus olhos olham para lá!” Mais que os olhos era seu coração que olhava. Mais que os olhos era seu coração que chorava.A filha quase nunca se comunicava. Nunca viera vê-la depois que partiu. Em algumas cartas suas já nem se podia mais ver as letras tão cuidadosamente foram dobradas e guardadas num velho guarda-roupas, amareladas pelo tempo.

Mas todo dia era assim: olhar para a estrada, renovar a esperança. Adoçar o coração com o sonho do abraço. “Hoje não veio, mas quem sabe amanhã?!” Pensava. Naquela manhã foi diferente. O barulho de um carro na curva da estrada. O resfolegar do motor e o ruído da porta se abrindo. Desce uma jovem, um jovem e uma criança. Giram o pobre trinco e entram na casa. “Mãe”, chama a jovem. “Vó”, insiste a criança! Agitação dos animais!

Num quarto humilde dorme uma senhora. O tão esperado abraço jamais será possível. Aqueles rudes bracinhos abraçam, já, o Criador e Doador de sua vida. E seus olhos de luz e sem lágrimas já contemplam a face de Deus!!!





Uma manhã distante

Hoje, pela manhã, abracei minha esposa. Senti em seu abraço um estremecimento não costumeiro. Olhava-me meio diferente e com uma ponta de desconfiança ou coisa parecida. Veio em minha mente a vontade de lhe perguntar a causa desta estranheza. Contive-me!

A manhã não era das mais belas. Os pássaros não cantavam como nos outros dias. O sol, também, se fazia de preguiçoso e seus raios estavam esbranquiçados e sem calor. Olhei para tudo isso e não dei muita atenção. Como homem de afazeres e preocupações, não costumo me deter a estes detalhes.

Sentei-me à mesa e fiz meu desjejum. Uma mesa farta, um manjar dos deuses. Pela cidade, eu sentia o alvoroço, o clima de festa da sexta-feira que prepara o fim de semana. O grito das crianças e o barulho das pessoas. A algazarra dos vendedores e os pés inquietos dos passantes. De minha janela divisava estes movimentos e, estranhamente, me sentia só.

Sentia-me solitário apesar das tantas pessoas a meu redor e do meu alto cargo político. Com tantas mãos que me serviam e que se dispunham a colaborar comigo. Sentia-me só, nesta manhã.

Minha esposa se aproximara como se quisesse me dizer algo. Então tomei coragem e lhe perguntei porque estava tão diferente. Ela disse não ser nada, apenas uma noite mal-dormida e de pesadelos. Novo abraço, novo estremecimento, mais uma manhã tranquila.

Agora já são duas e meia da tarde. Sinto-me ainda mais estranho. Nesta manhã, pediram minha autoridade para interceder por um presidiário. Pois bem, minhas mãos soltaram um tal de Barrabás. Depois eu as lavei e levaram um certo Jesus...





Aceno

Naquele dia frio de fins de maio, tomei o café, coloquei o paletó e me despedi. Não me despedi de nenhum mortal pois estava sozinho! Na estante, ao fundo da sala carpetada, peguei a velha carteira de couro e a enfiei no bolso do paletó. Não chorei porque não havia lágrimas em meus mornos olhos de fins de maio.

Olhei detidamente para a poltrona onde costumava ler um livro acompanhado por uma silenciosa e quente xícara de café. Meus movimentos eram lentos e medidos. Talvez para não sentir mais frio que o habitual ou para não me distrair na observação da velha e surrada moradia.

Vi, em um canto da sala, meio empoeirado e desbotado, um porta-retratos sem graça. Ostentava uma velha foto minha que parecia sorrir ao mundo. Um contraste! Naquele instante nem a mim mesmo eu sorria! Outro contraste: os cabelos negros de outrora pareciam desdenhar os brancos de agora!

As paredes de um amarelo fosco da sala traziam a marca do tempo. Um tempo de alegria que eu nem mesmo conseguia lembrar. Dentro da lareira, pedaços de envelopes cujas beiradinhas verde-amarelas não haviam sido queimadas. Junto à cinza daquelas cartas, um coração. Flutuando com a fumaça que subiu, um amor que se apagou.

É por isso que aquela casa não tinha mais sentido. Arrumei meus óculos pálidos frente aos olhos tão já sem brilho. Endireitei a gola da camisa e me preparei para sair. Nada deixava atrás, mas saía de mãos vazias. No vazio do mundo, fora, o meu coração bem cheio. Mais um que se junta à multidão.

Ao girar a chave senti, no barulho seco que soou, as portas da escravidão se abrindo. Os gritos afogados dos cavaleiros, a destruição dos carros e cavalos do faraó e a imensidão do deserto à minha frente. Triste engano! Esses gritos eram muito fracos. Esqueci-me de que em qualquer lugar onde esteja um homem ou uma mulher, um ou outro carregará a sua dor. Rirá de seus infortúnios e cantará suas ilusões. Não há mais Egito e nem terra prometida - pelo menos enquanto lugares definidos -, porque cada um os carrega dentro de si! Seja sozinho no aconchego de um quarto ou no meio de uma multidão sem rosto. E, comigo, ia pensando:

“Um olhar de alguém que se vai
a saudade de alguém que já foi embora
o aceno de mão distante
dói no peito um coração que chora


o amarelo do sol no crepúsculo
a despedida da lua na aurora
a mudança dos anos na vida
a lembrança dos anos de outrora


despedir é perder um pedaço
numa dor que nos corta na hora
a ausência me lembra de graça
a presença que quero agora.”

Fechei a porta atrás de mim e saí. Desci a rua lentamente para ganhar, em poucos passos, um mundo cheio de nada...











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