29 de junho |





Sobre o infinito
Melissa Rocha

Em flores se abre
Como perfume que se quer sentir
E não se toca.
Em águas é abundante
Enquanto eterna é a vida.
E pelos ares... Incontido.

Não se mede,
Pouco sobre se explica.
Não se vê tanto quanto se parece.
Imensurável, invisível, inexplicável.

Tem-se nas mãos
Como impressão que aparece
Como tatuagem que só é sentida.
Instigante.

Menos que desperdício,
Mais que pura lenda.
Talvez um precipício
Que se pula sem ter nos olhos vendas.

É a dúvida, são os números.
O oito que não é quatro mais quatro.
A matemática desnuda, incognoscível.

Nas preces, no vento, o transcendente
Imensurável, incontido.
Invisível transparente
Ousado e inocente
Que se chama Infinito!




Antiguidade

Corro atrás de palavras antigas
a fim de escrever sobre coisas novas.
Acorde para mim uma palavra antiga
e eu lhe darei uma canção de amor.

Porque já as tardes se tornaram roucas
e lá longe retumba um breve trovão.
Como um trovador triste sobre as nuvens feias
ele anuncia a chegada da chuva ao chão.

Os primeiros pingos delgados e tímidos
ora caem, ora param como breve oração.
Parecem provar a cor da poeira
parecem solenes beijar minha mão.

No céu o cenário muda rapidamente
de nuvens de neve a caras bem feias.
E a chuva trançando um cabelo antigo
desce em cordões como aranhas em teias.

E uma moça que passa protegendo os olhos
dos ventos gelados cantando atrevidos.
E some apressada nas veias da rua
no seu peito se escondem ventos divididos.

Agora os pingos já não são mais pingos
uma melodia molhada do céu a cair.
Recordam-me a dor de um inverno bonito
que fecha a porta ao acabar de sair.

E nesta mesma porta entra a primavera
doce donzela colorida em flor.
De perfumes tão raros em seu corpo doce
de olhos matreiros envergados de amor.




Batidas

Entre a janela e a grade o espaço é pequeno
como é curto o espaço entre a liberdade e a vida.
O que eu posso fazer não é o que eu quero sentir;
então chora no peito minha alma ferida.

As lágrimas da janela são os pingos da chuva
que descem de novo brilhantes e lisos.
As lágrimas da vida são os pingos do amor,
que até descem brilhantes, mas são sem sorrisos.

Uma pomba de longe se choca com a grade
e o vidro trincado se mostra mais vidro.
A pomba sem vida rolou para o chão
fragmentos da vida são vidros partidos.




Os irmãos

Eram três irmãos e uma irmã
uma bela e conhecida família.
Antiga e nova desde tantos séculos
tão próximos como mar e ilha.

Não havia deles quem mais velho fosse,
distantes dias cada um trazia.
Cabelos, faces e sorrisos finos
doces como a aurora que cumprimenta o dia.

A cabeleira branca de um dos irmãos,
a sensualidade ardente que o outro tinha.
O terceiro morno como o pôr-do-sol;
a irmã seria como a flor da vinha.

Quando um chegava o outro saía
seus braços famintos de encontro e festa.
Mas para quem ia a saudade estava
como certeza única que ainda resta.

Cabeleira branca do irmão inverno,
o verão é quente e tem lábios úmidos.
O outono é morno sol amarelo.
ó irmã tão bela de irmãos tão tímidos!
























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